Wednesday, January 17, 2007

Um velho disco de vinil

Quantas boas lembranças podem conter os sulcos de um velho disco de vinil? Ainda mais quando o LP é dado de presente por um velho amigo_ um amigão de... 20 anos? Dezenove, para ser exato.

Esse é o Mauro, meu ex-colega de escola, de bandas e amigo para toda a vida. Pois eu sumo e ele é quem apareceu ontem com o presente, no caso o “Viva Hate”, primeiro disco solo do Morrissey, gravado em 1987, da idade da nossa amizade.

O melhor é que as reminiscências ficaram apenas nos sulcos do disco. No nosso encontro não falamos do passado, apenas do presente e do futuro. E deu para perceber que ainda há muita vida pela frente e que nenhuma sombra ou dúvida que paira sobre nós agora, nada disso tirará de nós a coragem infinita dos tempos de garoto, nas areias, nas quadras invadidas ou nos palcos da velha Santos, quase da idade do Brasil.

Pois os nossos olhos ainda têm viço e podem brilhar. Algumas cervejas e percebemos que estamos vivos e melhores que nunca. Não é, companheiro?

O tédio (sim, paulistanos, mineiros e todos aqueles que não tem mar na porta, é possível se entediar na praia) que está me acometendo às vezes aqui, tão bem diagnosticado por outra grande amiga pelo MSN, pode ser vencido facilmente. Basta pegar o telefone e ligar para os velhos amigos, tirar a carcaça de dentro de casa e exercitar a cabeça e o corpo, à pé, de bike, à nado...

Vocês não sabem, queridos, o quanto sou e feliz e grato por seus telefonemas, suas mensagens, os papos no MSN. Vocês fazem a vida me doer menos.

E também ontem um grande companheiro de roubadas e ganhadas me ligou para perguntar. “Meu, quando é que você volta? Você sabe que só você me entende depois de um final de semana em que tudo deu errado”. Esse meu amigo não sabe, mas acho que esse foi o melhor elogio que eu recebi nos últimos tempos.

Não falei para ele na hora, porque isso só me ocorreu agora, quando escrevia este texto. Nós temos que parar de pensar nossa semana em função do final de semana. O sábado e o domingo, amigos, podem ser extremamente frustrantes. A gente coloca muito expectativa sobre eles dois e eles são apenas dois dias, 48 horas...

Temos que buscar a iluminação todos os dias. Ver o arco-íris no chafariz bregão da praia, as matizes diferentes no céu a cada pôr-do-sol, que, mesmo visto inúmeras vezes de um mesmo ponto, nunca é igual.

Anteontem, na última vez que parei para vê-lo, o céu tinha laranja, verde-água, azul celeste, azul cobalto, azul marinho, púrpura, violeta, amarelo, branco, vermelho. Cada cor era como se cada um de vocês, amigos, que têm me confortado nesses dias de tédio e de preparação para este ano (que será duro) estivessem ali comigo.

Obrigado, Mauro. Obrigado, Carol. Obrigado, Dani. Obrigado, Lu. Obrigado, Fabi. Obrigado, Marcos. Obrigado, Patrícia. Eu amo todos vocês.

A seguir, reproduzo uma letra do Morrissey, que explica como é o tédio-litorâneo a la Tatcher. Depois da letra original, segue a tradução, que eu fiz.

Everyday Is Like Sunday

Trudging slowly over wet sand
Back to the bench where your clothes were stolen
This is the coastal town
That they forgot to close down
Armageddon - come armageddon!
Come, armageddon! come!

Everyday is like sunday
Everyday is silent and grey

Hide on the promenade
Etch a postcard :
How I dearly wish I was not here
In the seaside town
...that they forgot to bomb
Come, come, come - nuclear bomb

Everyday is like sunday
Everyday is silent and grey

Trudging back over pebbles and sand
And a strange dust lands on your hands
(and on your face...)
(on your face)

Everyday is like sunday
Win yourself a cheap tray
Share some greased tea with me
Everyday is silent and grey

Todos os dias são como domingo

Avançando lentamente sobre a areia molhada
De volta ao banco onde suas roupas foram roubadas
Essa é a cidade costeira
Que eles esqueceram de fechar
Armagedon, venha, Armagedon
Venha Armagedon, venha!

Todos os dias são como domingo
Todos os dias são silenciosos e cinzas

Escondido no passeio
Gravado num cartão postal:
Como desejo ardentemente que eu não estivesse aqui
Na cidade litorânea
...que eles esqueceram de bombardear
Venha, venha, venha – bomba nuclear

Todos os dias são como domingo
Todos os dias são silenciosos e cinzas

Voltando sobre o cascalho e a areia
E um estranho pó pousa em suas mãos
(e no seu rosto...)
(no seu rosto)

Todos os dias são como domingo
Ganhe uma bandeja barata
E divida um pouco de chá melado comigo
Todos os dias são sileciosos e cinzas

4 comments:

Anonymous said...

cerveja, amigos, amizade, conversas, telefonemas, morrissey, belas canções de róque e bons textos, como esse, fazem a 'vida doer menos'. e agora fiquei com a música na cabeça. será assim o dia todo. :)

MO said...

eu acho uma pena que ela dure pouco mais de dois minutos... pelo menos a gente ouve um monte de vezes.

Anonymous said...

Po negao!! Brigada mesmo, vc q eh tudo de bom!! Sabe que quando precisar, estamos aí pra dividir aquela pastelina!!! Beijos!

Anonymous said...

querido, que saudades...
Só agora arrumei o link (odeio), mas ainda bem que vc resolveu voltar a escrever com força total...
Emeio?