Friday, January 12, 2007

Fui gongado e comprei uma bike*

A minha vida é uma tragicomédia. Tudo beira o patético, mas ela tem momentos de “quase” comédia-romântica. Foi o que aconteceu na última quarta-feira. No tédio solar santista, saí em busca de um bom filme. O destino era certo: o bom preço no Posto 4 Cine Arte e o bacana “Café da Manhã em Plutão”, filme sobre o qual já tinha ouvido falar muito e lido pouco (o que sempre costuma ser bom).

De pipoca na mão, olho para a direita e vejo uma loira linda, sentada sozinha, belos sapatos de chapéuzinho nos pés, vermelho. Cruzei a fileira até a outra ponta e sentei perto dela, deixando uma cadeira entre nós. Afinal, não sou tão imbecil assim a ponto de fazer ela pensar que queria (queria não, desejava) sentar a seu lado.

Filme maravilhoso, ainda mais quando encontrava ela ali do lado, concentrada, o que aumentava a minha vontade. O filme (lindo) acaba. A bela sai, eu saio, todos saímos. Eu ía para um bar no Gonzaga, passar mais um momento deprezaço, sozinho, quando a vejo de novo e descubro flores em suas costas. Ela olhava o por-do-sol.

Mudei de rota, fui me reencontrar com o por-do-sol de Santos, que na verdade, visto do Gonzaga, acaba sendo em Praia Grande. Passo por trás dela, para não dar bandeira e sento-me no meio-fio do calçadão, ponho os pés na areia e espero. Foram um ou dois minutos, mas me pareceram uma eternidade. Eu estava morrendo de vontade de falar com ela (como estou agora), e ela veio até mim e começamos a conversar...

A conversa foi ótima, além de loira e tatuada e usar um belo sapato vermelho, ela é estonteantemente linda, fala um pouco diferente (será de outro planeta?), é inteligentíssima, e tem um filho lindo, e é um pouquinho mais nova que eu e tem uma "arquitetura". (Meu Deus!) e tão indecisa este ano sobre o que fazer da vida, quanto eu. E adora cinema, tanto quanto eu adoro música, talvez enciclopedicamente, até. Ela gosta de Antonioni, só para ficar num exemplo.
Inacreditavelmente corajoso, afinal ela me deu essa coragem, após sentar-se a meu lado, a chamei para tomar um chope ou uma cerveja e comer algo. E ela topou, antes apenas certificando-se, como mãe ciosa que é, se o filho estava bem. Estava.

Ela é assim, me tomou de assalto. Conversa vai, conversa vem, o inacreditável aconteceu. Nos beijamos. E agora estou aqui, tristinho como estava antes, porque ontem ela me gongou. Tínhamos marcado um novo encontro e ela mandou uma mensagem dizendo que não podia sair de casa... Não quis invadir e perguntar o porquê e estou aqui, angustiado. Será mais uma tragicomédia?

Hoje, no day-after, decidi comprar uma bike para deixar aqui no “apê da praia”. É preciso. Devo ocupar a mente com algo melhor que televisão, e carregar "a garota da praia" na cabeça da Ponta da Praia até o José Menino, levá-la daqui para lá e de lá para cá. Ela está na minha cabeça, está no meu coração, que espera... Será que só devo esperar ou devo tentar mudar o final dessa história? Ainda bem que eu já sei quem é o autor, dá para mudar o final sem ter que implorar por isso. Bem, na verdade eu não sei o final da história. Só sei que agora, ela é tudo que eu quero.

* Título em homenagem às chamadas de capa da revista “Sou + Eu”. A aberração mais divertida do mercado editorial brasileiro.

Sunday, January 07, 2007

O Amor Não Tira Férias (de verdade)

Bem, o serviço está feito. Minha mãe mudou-se para Patos. Foi morar com minha irmã. Ajudei no que pude, estava presente. O ano das duas já começa com uma mudança e eu decidi que está na hora de fazer as minhas mudanças também. É o fim de uma era. Para mim, dez anos e meio de São Paulo já deram. Para ela, 33 anos e meio em Santos, deram também.

Em janeiro fazem quatro anos que eu me separei e até agora não organizei a minha vida, que piorou em vários aspectos, principalmente o financeiro, o que me impede de realmente fazer algo por mim mesmo. Pois decidi que essa é a hora. Se eu consegui perder 8 kg em 11 meses, porque não posso diminuir de tamanho? Porque não posso caber num quarto? É hora de mudar.

E o que o amor tem a ver com isso? Tem tudo a ver. Não se faz nada sem amor. Não se muda nada, se não se tem um objetivo na vida. E eu tenho dois motivos para começar a mudar. Meu futuro e o de minha filha, as duas pessoas que eu mais amo. Eu e ela. Preciso de saúde financeira para que sejamos felizes. Para quem sabe um dia, inclusive, nós possamos viver juntos novamente.

E não se muda nada se ficamos parados diante das situações que insistem em demonstrar que se está errado. Só para ficar num exemplo, para que ficar se relacionando com as mesmas pessoas? Pra que ter no messenger ex-namoradas, casos, rolos, ou outras coisas parecidas, só para começar??? Para que perpetuar essas situações, mesmo que ainda existam algumas lembranças felizes. Chegou a hora de botar vários pontos finais em algumas histórias de minha vida, como acabei de ver no filme que me inspirou a escrever este post, o surpreendentemente simples e bonito, “O Amor Não Tira Férias” (Holiday), com Jude Law, Cameron Diaz, Kate Winslet, Jack Black e Eli Wallach, simplesmente perfeitos.

Porque rejeitar tanto a terra natal, se ela, às vezes, pode ter muito a oferecer? Fazia tempo não passava tanto tempo na cidade e não conseguia notar que ela pode ser bem legal. Aqui posso pegar ônibus de madrugada (great!), andar de bicicleta na praia de manhã, estar constantemente bronzeado... E agora tem bons cinemas. E na casa do meu pai tem três ventiladores, oras! E eu posso finalmente sair de São Paulo e conhecer pessoas, novas, isso não é bom? E nada me impediria de dormir em São Paulo de vez em quando. Afinal, para que servem os amigos? Ainda tô de férias e vou pensar bastante a respeito...

Wednesday, January 03, 2007

É de madrugada que São Paulo vira cidade do interior

Vamos lutar por um transporte público decente e de qualidade em São Paulo. É um absurdo que a maior cidade da América Latina, com mais de dez milhões de habitantes, tenha um transporte de cidade do interior após a meia-noite.

São Paulo não tem linhas noturnas de ônibus, trem ou metrô. De 0h15 às 4h30, tudo pára. Quem pegou trânsito na estrada dia 1º, na volta do litoral, e chegou depois da meia-noite se lascou. Não havia nenhum esquema especial preparado, o que era o mínimo.

O Metrô de São Paulo pára à meia-noite, o que é um absurdo (em NY não é assim, em Londres muito menos) e depois não há sequer ônibus (as poucas linhas noturnas desaparecem aos domingos e feriados e é muita sorte pegar um busão depois de 1h).

Outro problema é a máfia que domina a "ponte rodoviária" São Paulo-Santos (Expresso Brasileiro, Ultra e Rápido Brasil). O serviço dessas empresas é porco. No dia 1º de janeiro não foi montado nenhum esquema especial para atender o público na Rodoviária de Santos e o resultado foram filas imensas e os carros extras não davam conta da demanda.

Após a chegada, sem ônibus e metrô, a rodoviária do Jabaquara virou um albergue. Crianças e idosos dormiram ao relento para esperar a chegada do Metrô e dos ônibus intermunicipais. Isso é indecente. Caos aéreo é o cacete! Alguns microônibus do sistema integrado, clandestinamente, tentavam ajudar, circulando após 1h, fazendo o batidão Jabaquara-Sé, mas eram insuficientes.

CAMPANHAS

Assistam "O Céu de Suely".

Ouçam "Seu Minuto, Meu Segundo", do Gram.

Andem de bicicleta.

Tuesday, January 02, 2007

Praia, fireworks e democracia

Havia quatro anos que eu não passava o Réveillon na terrinha. Ano passado, vi São paulo explodir num frenesi pirotécnico do alto de um edifício no Centrão. Em 2004 e 2003 estive em Copa.

Santos, não fosse sua beleza natural, seu porto e sua história _lá nasceram ou se criaram políticos de primeira grandeza, como os Andradas, Covas, a marquesa de Santos, cientistas como o padre Bartolomeu de Gusmão (um dos pioneiros do balão), campeões olímpicos, como Rogério Sampaio, dramaturgos, como Plínio Marcos, inúmeros atores e atrizes famosos_ muito provavelmente não seria nada mais do que é hoje: o último lar de aposentados de quase todo o Brasil. Como disse Marcelo Rubens Paiva, “Sabe por que Santos não afunda? Porque merda bóia”. Ah, claro, para quem gosta, é a terra do Santos Futebol Clube, tanto que Santos, além do prefeito, tem outra “otoridade” importante, o presidente do SFC, uma espécie de califa local, ou sultão, não sei.

Neste fim-de-ano, após um turbulento 2006, me restavam poucas opções: um réveillon em Sampa com um amigão e um bando de desconhecidos, ou estar com meu pai e minha mãe. Preferi a segunda opção, até porque, criado na praia (ou na merda), ainda não me acostumo com um Réveillon sem água por perto. Se um rojão me atingisse, pelo menos tenho para onde correr (me perdoe, sargento Barbosa, meu mestre de brigada de incêndio, desconheço se esse é o procedimento correto).

Foi interessante reviver algumas sensações. Apesar da nova Imigrantes, descer para Santos na temporada continua um inferno. Safo, desci no dia 31 à tarde. Até que deu certo. O sofrimento nos apertados bancos da Expresso Brasileiro foi amenizado pelo ar condicionado e por Nick Cave e A77aque e durou apenas 1h30 (a viagem normal dura 1h).

Visitei o meu pai, depois corri para a mãe. Jantamos, revimos juntos “Irmãos Cara-de-Pau”, que pssava na TV (Jim Belushi é o cara), depois pusemos nossos chinelos e fomos para a praia ver o “espetáculo”. Faltou a contagem regressiva em algum sistema de som (sabe como é, os velhinhos da avenida da praia podem enfartar), mas a cidade, enfim, caprichou nos fogos, pela primeira vez instalados no Oceano, e nos proporcionou 15 minutos de beleza extenuante. Fogos, pirotecnia, luzes que acendem e apagam_ fireflies fumegantes, mas faltou a contagem...

Não faltou o abraço na mãe e o desejo que 2007 não seja para nós a sombra da bosta que foi 2006. Para quem tem alguma dúvida, lá vai: eu vi minha filha ir morar na PQP, tive o susto de ver o pai superar uma cirurgia horrível para extrair um câncer. No trabalho, nada novo, sem emoções novas, muito menos salário novo, dívidas nas alturas. Dois amores na trave. Doenças... Só rindo, só lendo, só ouvindo muita música para buscar inspiração.

Tinha que voltar dia 1º. Afinal, os colegas “super legais” do trabalho me escalaram para o plantão do dia 2, com início às 9h (no próximo post conto a saga para chegar em casa).

Que minha vida em 2007 seja um pouco menos fugaz e idiota, como os belos, porém inúteis, fogos que estouraram na praia. Que o sacrifício valha a pena, pois sinto que o de 2006 foi apenas um aprendizado, mas muito, muito dolorido e desgastante.

Nasceu o novo dia e como muitos outros primeiros de janeiro, lá estava eu, pisando a areia de Santos. Os elementos estavam todos lá: prédios tortos, a areia escura, as árvores, os chuveiros, o mar, as ondas, os canais. Extremamente democrático em seu vai-e-vem, o footing a beira-mar santista não padece da deprimente ditadura da beleza. Lá somos todos normais e, mesmo em meu triste semblante, cabisbaixo, pensativo, a barba desgrenhada por fazer, o quilo e meio ganho na temporada natalina de muitos sorvetes com a filhota, me achava lindo e pronto (para 2007???).

Depois de ver “o homem” assumir de novo, fui tomar meu rumo e Santos voltou a ser a Santos em época de temporada. Rodoviária lotada como nunca me fez hesitar, mas à meia-noite, enfim, parti. Anchieta parada (porque a estrada mais linda, sempre tem que ser a mais lenta?), ônibus lotado de manos pós-adolescentes rindo o tempo todo. Riem de quê, caralho??? De quê!!!

Eles apenas sonham. O ano apenas começou para eles, que voltarão para a praia outras vezes. Para mim, ainda tenho esperanças, mas acho que o ano apenas mudou de número.

Wednesday, December 20, 2006

Absolute beginners

Quem ama a arte sabe que o artista dentro de cada um de nós nunca morre. Não foi à toa que escolhi a mitológica Choperia Liberdade, um karaokê extremamente bizarro e antológico no centro de SP, para a festa de fim-de-ano da “firma”. Desejava ansiosamente que aquele pequeno grupo de talentosas pessoas se soltassem e se divertissem e honrassem o palco em que pisariam aquela noite, ainda que o palco tivesse menos de 20 cm de altura. Afinal de contas, cada um que subiu naquele palco, a cada música desembolsou duas pilas.

Até o segundo ano do segundo grau eu era completamente nerd. Três eventos naquele ano, entretanto, me fizeram começar a me soltar. Em 1990, aos 16, tomei meu primeiro porre no aniversário de 15 anos de minha irmã. Licor de menta e sprite foram a fórmula que me levaram a emular um misto de Page/Plant com uma vassoura... Entre 1990 e 1991 interpretei João Grilo em o “Auto da Compadecida”, na montagem que fizemos da peça de Suassuna para a aula de Literatura. E em 1991 minha primeira banda, a então Nowhere Band, estreou no anfiteatro da outrora gloriosa EESG Primo Ferreira.

A partir desses três eventos descobri que poderia dar um pouco de mim para os outros através de movimentos, expressões, palavras e música e comecei a entender o que é o artista, seu trabalho, sua importância e porque jamais se deve vaiar aquele que dá a cara para bater em cima de um palco. Poucas pessoas têm noção, por exemplo, sobre o que é um ensaio em uma garagem calourenta, no verão santista, a 40º C, a repetição exaustiva, dentro de um estúdio, de um riff, ou decorar um poema para declamá-lo...

A vida levou-me a não ser um artista profissional, mas nunca deixei de ser um “entertainer”. Entendo que o convívio entre pessoas pode ser algo extremamente desgastante e chato e o meu lado artista tenta, com minhas presepadas, deixar o ambiente leve para o outro, que não é obrigado a estar feliz o tempo inteiro.

Eu mesmo não passo por um dos momentos mais brilhantes da minha vida: stress, excesso de trabalho, falta de grana, doenças, despesas que surgem do nada, coisas extremamente desagradáveis têm me ocorrido... Nos últimos dias cheguei até a não ser gentil ou agradável com os meus colegas de trabalho. Ontem, definitivamente, eu queria muito cantar, interpretar. Na verdade, eu precisava.

E os colegas vieram. Estávamos num simpático grupo de oito pessoas, alguns estreavam num karaokê e se intimidaram, mas todos tentaram. Felipão surpreendeu sacando o sambinha “As Mariposa”, de Adoniran Barbosa. Bruno dividiu os microfones comigo em duas canções do Cazuza, “Ideologia” e “Todo Amor que Houver Nessa Vida”, com direito a olhares fulminantes para uma gaja de olhoso verdes, mesmo com o arranjo travado do Barão (que sufoco, mano!). No karaokê a gente sempre conhece pessoas legais e fui convidado ao palco para dividir os vocais de “Canteiros”, de Fagner, um dos meus hinos... mesmo sem saber direito a parte do meio.

Soltei minhas veias bregas, românticas e cantei: “Me Dê Motivo” (Tim Maia), que é muito boa para soltar a voz, uma vez que é uma música na qual tento imitar a voz e trejeitos de Tim em vez de cantar; “Eu Te Darei o Céu” (Roberto e Erasmo Carlos); “Sonhos” (Peninha); “Tempos Modernos” (Lulu Santos), um velho clássico dos tempos do Espetinhos, em Santa Cecília... e, pela “primeira vez na TV”, “Cachoeira”, de Ronnie Von... com coro animado de todo o karaokê...

Apesar de tantas músicas, a sensação de frio na barriga antes de cada estréia, a espera ansiosa, e muita manguaça no cerebelo, todos esses sentimentos estavam de volta... Mas nem um pouco de vergonha, nem um pouco de raiva, nem um pouco de stress, estava livre, era dono do meu espaço. Eu sorria, como um iniciante que acerta um belo chute, uma bela tacada, afinal éramos todos absolutamente iniciantes, absolutamente amadores, e nervosos também, como Bowie (lindamente) cantou na brega, porém maravilhosa “Absolute Beginners”, tema de um filme horroroso de mesmo nome.

I've nothing much to offer
There's nothing much to take
I'm an absolute beginner
But I'm absolutely sane...
As long as we're together
The rest can go to hell
I absolutely love you
But we're absolute beginners
With eyes completely open
But nervous all the same

If our love song
Could fly over mountains
Could laugh at the ocean
Just like the films
There's no reason
To feel all the hard times
To lay down the hard lines
It's absolutely true

Nothing much could happen
Nothing we can't shake
Oh we're absolute beginners
With nothing much at stake
As long as you're still smiling
There's nothing more I need
I absolutely love you
But we're absolute beginners
But if my love is your love
We're certain to succeed

If our love song
Could fly over mountains
Could sail over heartaches
Just like the films
If it's reason
To feel all the hard times
To lay down the hard lines
It's absolutely true

FELIZ NATAL E FELIZ 2007, AMIGOS, COM MUITO AMOR.

Monday, December 11, 2006

Amor incondicional

Enquanto na vida amorosa todos os meus resultados são incompletos e tudo parece estar em colapso (nenhum ciclo parece se fechar e meus três casos recentes não foram vividos plenamente _um beijo fugidio longe de casa, uma garota mais ligada em livros e computadores do que na vida e uma bela psicóloga que não sabe se fica casada ou se separa), com Isabella, mesmo com a distância de 696 km, a vida parece fazer sentido.

Dezessete horas de viagem (ida e volta), diárias de hotel, gasto com material escolar, presente de Natal, gasolina (minha contrapartida para a volta de carro), gastos com alimentação, lanches, tomar Coca-Cola normal, coisa que já não faço mais... Para muita gente tudo isso poderia ser o inferno, para mim é o paraíso. Porque são por essas atitudes, essa presença, que acredito estar vivendo pela primeira vez meu único amor incondicional _o amor de um pai por sua prole.

Logo de cara começo a sentir a sensação de dever cumprido. Chego, me registro no hotel, encontro Isabella e a levo para a escola. Naquele segundo, ela entra pela última vez na pré-escola. Ano que vem, no final de janeiro, ela começa o ensino fundamental. Me sinto parte, sinto que cada centavo está sendo bem empregado. Depois, verifico os documentos de matrícula da minha filha e constato que ela já tomou todas as vacinas e leio o primeiro boletim escolar de uma carreira que eu sei que será longa e que vai bem, obrigado.

No sábado, mantivemos uma tradição que temos desde quando ela tinha dois anos. Fomos ao cinema à tarde. Vimos “Happy Foot”. Tirando as músicas, os efeitos de animação fantásticos, a versão em português meia-boca e o roteirozinho chulé derrubam o filme e tornam seu final ininteligível para uma criança de 5 anos.

À noite, fomos ao Willie Davids ver os balões que participavam do Campeonato Brasileiro de Balonismo fazer o Night Glow... Espetáculo bonito, mas os organizadores estragaram tudo, anunciando que a festa começaria às 19h, quando 19h era apenas o horário de abertura dos portões, deixando as pessoas duas horas trancadas num estádio de futebol, assistindo uma prostituta da cidade fazer um cover podre de Vanessa da Mata, acompanhada de duas piranhas e uma bichona supostamente dançarinos e pessimamente coreografados. Viva a pipoca e o churros...

Mesmo com o soninho e o showzinho dado no restaurante japonês logo em seguida e a longa viagem que teríamos na volta, nada era capaz de desfazer a minha alegria. Tudo valeu a pena no domingo de manhã. Assim que acordamos, ouvi um sonoro e sincero “papai eu te amo!”.

Friday, December 08, 2006

Neologismo sino-francês

Como os brasileiros são criativos!

Como você chamaria um
restaurante/lanchonete que serve yakissoba? Que tal misturar a palavra
yakissoba com o sufixo de origem francesa "eria", que remete a
rotisserie, panetterie... A nova palavra foi vista na rua Barão de
Iguape, na Liberdade, a caminho da Choperia para esbaldar-me no
aniversário de Debbie ontem:

Bem, já imagino o verbete no dicionário:

Yakissoberia - s.f.: Local onde é servido yakissoba, receita de origem
chinesa na qual se refogam macarrão, legumes e isca de carne na manteiga
e cebola, alho e muito molho de soja (shoyu).

Saturday, December 02, 2006

Brasileiro sim, e daí

Quarta-feira caminhava à noite pela rua Augusta, sem eira, nem beira, com uma fome não-específica. O Ibotirama, que serve um pf honesto estava lotado. Lembrei do Violeta, o melhor pedaço de pizza da afamada rua. Ouvi uma voz feminina até que afinadinha cantando Roberto Carlos, era Claudia Abreu. Ela tava na TV (Globo), onde passava o (muito bom) “O Caminho das Nuvens”, de Vicente Amorim, cantando “Se Você Pensa”.

“Das origens”, o balconista gente boa estava com os olhos fixos na tela, babava o tempo todo, se via na história de Romão, que percorre o Brasil de norte a sul (3.200 km) entre a Paraíba e o Rio de Janeiro, levando mulher e cinco filhos, em busca de seu sonho. “Puta filme bom da porra!”, exclamava o “cãoterrâneo”. Também estatelado, falei que o filme era bom pra cacete e que ele deveria assistir até o final. Esqueci de perguntar seu nome.

Roberto Carlos, a quem o filme é dedicado, é a trilha do sonho. Quando faltava dinheiro ou comida ou os dois, a personagem de Claudia Abreu tirava um Roberto da cachola e mandava com os filhos. Com os cobres, enchiam os buchos e os pneus da bicicleta e seguia em frente. Nosso personagem, atrás do balcão, se via na tela e reconhecia. “A gente vê tanta porcaria do estrangeiro e às vezes não dá valor ao que é nosso”. E eu continuei dando força ao nosso amigo. “Eu já vi o filme muito bom”. “Viu no cinema?”, ele pergunta. “Sim, aqui do lado”, respondo.

O nosso personagem não sabe que Amorim é filho de embaixador, ele não quer e não precisa saber disso, ele não está nem aí que o filme é da Globo Filmes, ele não torce o nariz porque Claudia Abreu canta Roberto. Ele acha a história bonita e vê um filme brasileiro, às 22h30 da noite, na Rede Globo! E é isso que importa! O Brasil precisa se reconhecer na tela, foda-se quem ta pagando por isso. Nosso amigo balconista prometeu procurar “O Caminho das Nuvens” na locadora. Tomara que ele ache, tomara que ele assista. Quando eu passar de novo no Violeta, vou cobrar isso dele.

Friday, December 01, 2006

Dirija um kart

Fã de Fórmula 1 desde a mais tenra infância, quando, aos 7 anos, vi Nelson Piquet ganhar seu primeiro título mundial na travada pista de Las Vegas, sempre tive curiosidade de tomar o volante de um monoposto. Realizei esse sonho no último domingo, pilotando o kart, num lugar super legal de tão bizarro, o SP Diversões, no Butantã, numa tarde com o pessoal do "selviço"...

Tinha chovido um pouco antes e os marmanjos decidem então botar o simpático macacão fornecido pelo centro de diversões. Manja aquele macacão podre do seu mecânico, com zíper até a altura da cueca... Pois é, usei um treco desses... Hehehehe

Partimos para as voltas de reconhecimento de pista, mas o meu kart apresentou problemas no seu impressionante sistema de partida e morreu várias vezes, me impedindo de fazer a tomada de tempo. Os carrinhos estavam todos empenados e muitas vezes o freio só freava de um lado, fora isso estava com calçado completamente inadequado...

Apesar de tudo isso ter prejudicado o meu desempenho e me posto no último lugar da competição, correr naquele velotrol turbinado foi sensacional. Por estar posicionado bem atrás do piloto, o motor faz um ronco inacreditável... Nas curvas é preciso ter muito braço e a pista molhada fazia o kart rodar direto. Tudo isso é extremamente adrenalizante e é tudo o que você jamais poderia fazer com o seu carro.

O SP Diversões cobra, segundo os meus colegas de trabalho pesquisaram, um dos preços mais baratos para uma bateria de meia-hora. R$ 48. Eu recomendo. Entretanto, sugiro que os mais sensíveis levem protetor auricular, não pelo barulho dos motores, mas em virtude da horrorosa trilha sonora: Rappa, axé e Bruno & Marrone.

Saturday, November 25, 2006

Porque eu amo São Paulo

Decidi escrever este texto ao parar pela milésima vez no alto da passarela Ciccillo Matarazzo (a passarela do Detran), que liga o Detran ao pavilhão da Bienal, no Ibirapuera. Passava pela enésima vez por ali com a minha bicicleta, mas não pude deixar de parar o olhar para aquele horizonte metade de pedra, metade verde. Árvores, parque Ibirapuera começando a lotar, trânsito insandecido (aliás, como tava parada a 23 sentido Centro), mas hoje tinha sol, hoje tinha céu azul...

Céu azul e sol forte logo após uma noite de chuva, daquelas feitas para dormirmos bem, têm poder abrasador. Acordei cedo e fui buscar o remédio da filhota (que eu entregarei pessoalmente no feriado do dia 8), enchi os pneus da bike e lá estava eu na farmácia de manipulação. Mesmo há quase um mês sem andar de bike decentemente, lá fui eu para o inexorável, onipresente, tesudo, cheiroso, louco parque do Ibirapuera, grande concentração de pessoas zen do bem...

E ao chegar, não pude deixar de sentir o cheiro das folhas úmidas e da terra que subiam, voláteis, rumo ao ar, rumo às nossas narinas. Cada sombra trazia uma sensação única, assim como trecho da ciclovia do parque sob o sol levava aos olhos as matizes mais diversas de cor, o lago do parque parecia encantada, faltando apenas que ali encarnassem fadas diáfanas... Não sei como as pessoas não usam o parque o Ibirapuera como cenário para casar, como os japas fazem no Central Park...

Com um parque como o Ibirapuera, para que uma cidade precisa de vida noturna??? Mas São Paulo tem e só na noite de São Paulo é possível encontrar uma colombiana curtindo Chuck Berry e Ray Charles na pista da Funhouse, depois de testemunhar seu melhor amigo destruir, por desafinação e não por avacalhação, “As Curvas da Estrada de Santos”, no karaokê-restaurante japonês-choperia Liberdade, enquanto era vaiado por falsos moderninhos bombados e tatuados com mullets-interlace que não conseguiam sequer cantar “Besame Mucho”.

E só em São Paulo um amigo seu te liga às 23h30, depois de assistir com a mãe ao Rei no Credicard Hall, nos fundões da marginal Pinheiros, e te chama para sair... E, no táxi, no caminho para a balada, o motorista, admirado por `jovens´ gostarem de Roberto Carlos, revela que teve uma banda de rock nos anos 60, chamada Os Lobos e que conheceu o rei “himself” e que o cara era muito gente fina (“O Paulo Sérgio, que não era nada, era todo metido, já o Roberto sempre conversava com todo mundo. Ele merece todo o sucesso que tem”. Vida longa ao Rei, e te agradeço, São Paulo, por existir, todos os dias. Foi aqui que eu construí o pouco que eu tenho, foi aqui que nasceu minha filha maravilhosa, é aqui o cenário da minha história... Tava com saudades.

Tuesday, November 21, 2006

Suspenso no espaço (sobre POA, mais um pouco)

Um beijo só, entre concedido e roubado, escalado a partir da nuca, galgado em um pescoço branquinho, parcialmente encoberto por charmosos cabelos curtos... Porque algo tão simples envolve tanto mistério? Porque a cabeça de um homem supostamente tão experiente fica de repente enuviada? Porque nada mais serve? Porque todo o resto é apenas consolação?

A resposta é: não sei. Só sei que ela me encanta. Já havia me encantado no ano passado, mas não tive a auto-confiança necessária para me aproximar de fato. Este ano, quando pediu para que eu me sentasse a seu lado durante um almoço, fiquei de queixo caído. Algo tão simples ligou algo em mim de novo.

Na sexta saímos, tocava uma banda cover de Beatles, os mesmos Beatles que já tínhamos cantado juntos outra noite. O beijo aconteceu, mas ela recusou meu carinho, pediu para que eu esquecesse aquilo, mas agora é impossível, querida! Você já faz parte da minha história, pois estará lá, cravado para sempre no meu chip, esse momento mágico.

Ela mora no centro do país e eu aqui em Sampa, é comprometida, mas não paro de pensar nela e meu único desejo é que toda minha vida coubesse numa mala e que eu pudesse juntar a minha mala e a dela em algum lugar. “Será isso a permanência?”, como cantava Ian Curtis?? _um momento fugidio, algo incompleto, porém perfeito?

Toda essa inquietação me consumiu durante horas ao longo do fim de semana, especialmente nas seis horas em que esperei um avião que parecia fadado a nunca aparecer, talvez para me deixar lá, preso em Porto Alegre com as minhas lembranças de viagem, numa outra dimensão, imaginária...

Bem, nossas vidas seguirão. Cada um em sua cidade, com o seu trabalho e todo o resto. Independentemente do que acontecer, tudo isso é só para dizer que adoro você e que posso ser o que você quiser que eu seja: namorado, amigo, confidente. Apenas não quero que você suma.

De volta à São Paulo, imerso em meu edredon, ouvia um disco antigo dos Acústicos & Valvulados e meus sentidos foram tomados por sua imagem novamente ao ouvir estes versos de “Suspenso no Espaço”. A letra é do poeta/baterista Paulo James, para mim o melhor letrista brasileiro.

“Namorado sempre teve mas também quer seu melhor amigo
E falou que já não mais sabia o que podia ser dito ou não
E muito menos eu que espero a música tocar
Suspenso no espaço
Eu que vou tão longe por guardar
Um beijo na memória”

Thursday, November 16, 2006

No lugar certo, na hora errada

Porto Alegre é uma das cidades mais bonitas e encantadoras que eu já conheci. Estou apaixonado pela rua Borges de Medeiros, pelas colunas do viaduto que a divide ao meio, pelos ipês em flor, pelo por do sol no Guaíba, pelos colegas generosos e gentis do congresso do qual estou participando. Até do chimarrão estou gostando. Só peço aos torcedores do Grêmio e do Inter que não se animem, pois não troco meu Flamengo por nada.

Só peguei táxi para levar as malas para o apê onde estou hospedado, em Menino Deus, um bairro misto aqui de POA, perto da Cidade Baixa _ a Vila Madalena daqui, cheia de bares sensacionais, como simpático Van Gogh e seu pastelzinho delicioso, pertinho do Farroupilha.

Como gosto, tenho explorado bastante a cidade andando ou de ônibus. E me surpreendeu a atenção da maioria dos motoristas e cobradores. Fiquei chateado apenas com o atendimento em um só lugar dos vários em que estive, na tal de Olaria. De resto, todo mundo é muito educado e atencioso, os mais legais foram os da churrascaria Garcia´s, aberta a madrugada inteira, na avenida Praia de Belas.

Entretanto, uma gripe logo após uma infecção de garganta que eu trouxe de São Paulo estragou vários de meus planos. Nada de balada até domingo, nada de álcool. Baixei no hospital Mãe de Deus (que atendimento!) e saí de lá agora para dormir muito de hoje para amanhã, pois de tarde teremos a imperdível parte dois de nosso encontro setorial. Uma pena estar no lugar certo, mas na hora errada (se ainda tivesse um colinho!). Espero voltar logo.

Saturday, November 11, 2006

Der Glauben Liebe*

Não consigo entender as pessoas que tentam viver a vida apenas em termos racionais, na tentativa de esquadrinhar sentimentos, interpretá-los o tempo todo. A compulsão humana por esse racionalismo, agravada mais ainda nos tempos atuais, pelos verbos julgar (comparar), planejar, executar me deixam cada vez mais sufocado, me fazendo sentir cada vez mais deslocado na Terra.

Sou do tempo em que os verbos sonhar, amar, viver acompanhavam muito mais o imaginário humano. Cresci lendo as Grandes Aventuras Abril (20.000 Léguas Submarinas, Capitão Tormenta, Ivanhoé, Robin Hood, Os Três Mosqueteiros), todos traduzidos e adaptados por grandes autores brasileiros. Me transportava para aquele mundo o tempo todo, aquelas eram as minhas lendas. Ao mesmo tempo entrava pelos meus ouvidos a música de meu pai e minha mãe, Roberto Carlos, Erasmo, os reis em primeiro lugar e todo um cancioneiro popular do fim dos 70, começo dos 80: Discoteque, trilhas de novelas, como O Astro (internacional), Gilliard, Amelinha, a fase Danado de Bom, de Gonzagão, e Roberto Ribeiro.

A televisão e toda a fantasia e alienação que ela representava naqueles tempos em que o idealismo era torturado e morto nos porões da Ditadura (muito antes da constatação de Cazuza de que as Ideologias perdiam sentido – “meu partido é um coração partido/ e as ilusões estão todas perdidas/Os meus sonhos foram todos vendidos/tão barato que eu nem acredito...”). Mundo afora, Mark Chapman e seus tiros invejosos que mataram o resto de ideologia que John Lennon representava, um homem que só queria a paz num sentido não-burguês. Pôxa, não é à toa que, sendo fruto dessa época de ouro (só os tolos acham que os 80 foram completamente inúteis), eu sou Flamengo.

Meu dicionário era a brochura com todas as letras do Roberto até 1981!!! Por causa desse caldo todo é que eu sou extremamente romântico (muito carente, é claro, mas essencialmente romântico), bem humorado a maior parte do tempo, muito rabugento também, crítico exasperado, jornalista, óbvio... Amante das causas impossíveis: Lula Lá, direitos humanos, igualdade, liberdade ainda que à tardinhA e fraternidade.

Por isso está sendo quase impossível o diálogo com essa moça seis anos mais nova pela qual estou me apaixonando e que ainda não beijei!!! Eu não quero novamente viver outro amor platônico. Eu não quero novamente ouvir o que eu ouvi ontem: “quando eu fico com alguém pela primeira vez eu sumo pelo menos uns 15 dias para digerir o que aconteceu”. Pois eu, baby, tudo que eu quero é te agarrar e se eu te agarrasse eu não ía querer soltar! É lógico que você teria sua liberdade, eu te dou todo o espaço para você mergulhar no seu alemão, nos logs e configurações dos sistemas de computação que você desenvolve, mas eu preciso de contato físico... Me dê algum, por favor!!! Ah, e eu já passei da idade de pedir beijo!

* O título desse post não quer dizer nada. Não sei alemão, apenas sei que Liebe é amor. Glauben tem em seu prefixo letras que formam o nome da moça em questão... Mas se alguém souber que faz sentido, me escreva. Estou, no mínimo, curioso.

Um sorriso do tamanho do mundo

Felicidade. Essa é a impressão que passa e a sensação que causa assistir a um show do Del Rey (união de integrantes do Mombojó com o vocalista China, do Sheik Tosado, bandas de diferentes gerações do rock brasiliano de Pernambuco, com o objetivo de tocar o repertório de Roberto Carlos).

China ou Flávio Augusto, como queiram, que fazia aniversário na última quarta-feira, dia do show, tocava com um sorriso no rosto o tempo todo, feliz, fazendo-me esquecer do DJ que tocava antes da apresentação da banda, que irritou a maior parte dos presentes tocando funks (apesar de clássicos) intermináveis, aquela coisa sem refrão ou só com refrão... (um parêntesis deve ser feito aqui, os DJs que tocam no Studio SP parecem ter esse triste costume de estragar o clima com um repertório extremamente pessoal e completamente nada a ver com o clima da noite).

O cantor é um performer nato, nasceu para o palco. Devia ser um daqueles garotos que nas festas de família fazia imitações, cantava as últimas do Balão Mágico ou imitava as caretas de Jerry Lewis. E ele parecia realmente à vontade, como se estivesse na sala de casa...

Ao repertório, nenhum retoque: uma cobertura extensa da fase ultra pop-rock-soul de RC (1966 até 1970), com esporádicas aparições, muito bem colocadas, de clássicos dos 70 como "Detalhes", "Além do Horizonte", "Ilegal, Imoral ou Engorda" até hoje no repertório do Rei. Apenas senti um pouco a falta de uma ou outra canção mais filosófica como A Janela, O Divã, Traumas. Mas como encaixá-las???

Roberto e Erasmo e até Ronnie Von merecem todo o culto que usufruem hoje e quando cultivados por caras espertos como os do Del Rey vale a pena. E, gente, o Brasil tem que conhecer o China.

Thursday, November 09, 2006

Caso encerrado

Wander Wildner respondeu e-mail deste escriba sobre o episódio da cobrança de ingresso antecipado, em cash, no último show da temporada em que ele tocou toda terça-feira no bar e não teatro musical Mão Santa (veja o post abaixo).

Ao contrário do que afirmou o pessoal da casa, Wander respondeu que não houve tal acerto com sua equipe e ele não sabia que a cobrança estava sendo feita dessa forma. Pediu desculpas pelo inconveniente e disse que, nos próximos shows, vai cuidar para que isso não ocorra novamente.

Eu que devo desculpas por ocupar o tempo dele com assunto tão banal. Fiquei muito grato e honrado com a resposta de WW.

Thursday, November 02, 2006

Odiei o lugar, mas amei o Wander

A expectativa diante do show de Wander Wildner no último dia 31 era enorme. Seria o último show de sua temporada de todas as terças em São Paulo, no Mão Santa (rua Mourato Coelho, 816, Vila Madalena, São Paulo), o que sempre prenuncia um show especial, ainda mais quando anunciado que teria a participação especial de Júlio Reny (artista solo, guitarrista, ator, radialista, integrante de bandas como os Cowboys Espirituais, Expresso Oriente, lançando um novo disco solo “Dias de Chuva”, enfim uma lenda do rock gaúcho, com quase 30 anos de serviços prestados à música).

Uma pena que parte dessa expectativa acabou frustrada, causando-me, inclusive, uma descarga tão bruta de adrenalina que me rendeu uma dor de cabeça monstro só curada pela atenção amiga da Helô.

A parte mais frustrante foi que a participação do Júlio não pôde ser considerada especial. Não por causa do show, que foi ótimo, apesar de ter sido uma apresentação de abertura, curta, é claro, mas devido ao desrespeito do público com o artista. As conversas das pessoas na audiência eram mais altas que a bela voz do cantor no (fraco) sistema de som da casa. Ninguém prestava atenção, mesmo com os arranjos maravilhosos do guitarrista apresentado por WW como Viajandão. E uma vez que a participação do artista foi divulgada como especial, eu tinha entendido que ele e o Wander, apesar de suas formações musicais distintas, iriam fazer uma jam, mas não rolou...

Até aí, tudo bem, mas a frustração foi antecidida por incidentes muito chatos. Não sei se por ser uma temporada fechada, num dia não muito maravilhoso (terça-feira), a casa (que anuncia aceitar cartão de crédito e débito) cobrou os R$ 10 de entrada na porta, em dinheiro... Como estava só, metade da minha grana do táxi já ficou ali mesmo. Segundo o porteiro, essa cobrança antecipada de ingresso foi decidida entre a entourage do músico e a casa. Com a palavra o Wander (estou mandando um e-mail para ele sobre isso).

Pessoalmente e financeiramente, não fico puto pela cobrança antecipada, mas me senti aviltado como consumidor. Se o ingresso custava R$ 10 para todos, antecipado, pagos na porta e não no final da conta, porque mesas reservadas? As condições deveriam ser iguais para todos os consumidores, não é? Fui um dos primeiros a chegar e fiquei sentado no fundo e sou fã igual a maioria das pessoas que estava ali... E se o esquema da casa é bar com show, deveria cobrar couvert artístico e não ingresso, com pagamento na saída e aceitando todas as formas de pagamento disponíveis. E se o esquema da casa é show, com bar, não deveria permitir que parte dos consumidores ficasse em pé, atrapalhando a visão do artista para boa parte da audiência, eu incluso.

Não bastasse isso tudo, no letreiro da casa havia a informação “chopp” e a casa só vendia cerveja em garrafa e em lata, de três marcas: Schincariol, Skol e Original. Pedi uma Original que chegou quente a minha mesa e, apesar da minha reclamação, não foi trocada. Detalhe, a pobre garçonete, casa lotada, mais perdida que o Mr. Magoo no trânsito, não me disse que havia latinhas... Infeliz com a cerveja, pedi uma Coca-Light... Não tinha. Só a Coca-Hard... E refris de limão e guaraná, da Schin...

Decidi não beber mais nada, mas tava um puta calor dentro daquele lugar pequeno e pedi uma coca normal mesmo, com bastante gelo para diluir, mas já tinha acabado a coca... Tomei uma schin de Limão, parecia a Tubaína do demo!!!! O copo cheio de gelo foi minha salvação... Tudo isso para dizer: pode tocar o WW de novo, o Ira!, o Roberto Carlos naquela p... de Mão Santa, que eu nunca mais piso naquela m... Lugar de bosta. Mais um (confira os posts Lugarezinhos de Merda 1 e 2).

Mas graças a Deus, WW, que estava alheio a tudo isso, sossegado, assistindo o show do Reny (o qual apresentou com enorme carinho) como todos os mortais. Em seguida, subiu ao palco com o mesmo guitarrista do show do Studio SP e arrasou. Acústico, Wanderley Luiz Wildner mostra todas as nuances de sua voz enorme, às vezes rouca, às vezes grunhida, porém sempre afinada, um Tom Waits melhorado, menos excêntrico, brasileiro, latino, com suas letras que de uma hora para outro mudam de curso, mas que dizem o simples (o simples é sempre o mais difícil de alcançar e ele alcança o simples com facilidade). No show, WW se dividiu com maestria entre os clássicos gaúchos revisitados como “Empregada”, “Amigo Punk” e “Um Lugar do Caralho” e suas próprias canções. Poucos acordes e muita alegria e sorrisos no rosto de quem o vê.

Já escrevi demais, o repertório do show fala por si...

Ganas de Vivir (Juan Suarez)
Refrões (WW)
Bebendo Vinho (WW)
Anjos e Demônios (WW)
Um bom motivo (WW)
Quase Um Alcoólatra (Giancarlo Morelli)
Empregada (Frank Jorge)
Eu Não Consigo Ser Alegre o Tempo Inteiro (WW)
Você Já Era (Out Of Time) (Jagger/Richards, vers. Clarah Averbuck)
Minha Vizinha (Gerbase/Wildner)
No Ritmo da Vida (WW)
Um rapaz só (Lonely Boy) (Steve Jones/Paul Cook, vers. Marcelo Moreira)
Correndo por Correr (Todo Mundo Um Dia Vai Embora) (Sandro Nunes/WW)
Candy (Iggy Pop)
Rodando El Mundo (WW, com citação de “Machu Pichu”, de Hermes Aquino)
Maverickão (Zicco Cardoso)
Mantra das Possibilidades (WW)
Um Lugar do Caralho (Flávio Basso a.k.a Júpiter Maçã)
Última Canção (Vico)
Eu Tenho Uma Camiseta Escrita Eu Te Amo (WW)
Amigo Punk (Frank Jorge)

Saturday, October 21, 2006

100 páginas de puro sexo

Sexo é a união de duas ou mais pessoas em busca de prazer. Sexo heterossexual é a união de um homem e uma mulher em busca de prazer, portanto é a união de pintos e bucetas em busca do bem mútuo daquelas duas pessoas que compartilham a alcova, o chão do banheiro, a pia da cozinha, o motel, enfim, qualquer lugar... E com a mercantilização do sexo, ou seja, desde que o samba é samba (afinal não dizem que a prostituição foi a primeira profissão???) veio o erotismo e a pornografia, duas faces de uma mesma moeda _a demonstração ao público de manifestações pessoais tidas íntimas: o corpo e o sexo até então invioláveis.

Entretanto, no mercado editorial de revistas eróticas brasileiro e, para bem dizer, mundial, sempre imperou o termo revista masculina. Enquanto que no mercado pornô, a busca por produtos que agradassem a platéia feminina, como filmes de softcore ou de pornôs com história, por exemplo, começava, nos idos dos 80, a abrir um veio em busca do mercado feminino, o mercado de revistas eróticas de estagnou nesse sentido. Com a revolução trazida pela web e a crescente produção de vídeos caseiros proporcionados pelas web cams, esse mercado parece quase obsoleto, colocando mulheres até então insuspeitas em busca da realização de suas fantasias em meio aos downloads e uploads.

A boa surpresa é o retorno do título EleEla, mais Ela do que nunca. Do alto de seus 37 anos, a revista renasce com um projeto editorial (de Wagner Carelli) e gráfico soberbo, com sexo em suas 100 páginas, com muitas bocetas e também com pinto (afinal essa história tem duas metades), mas mantendo algumas tradições como a sessão Fórum, repaginada, com textos de primeira, como o belíssimo conto “Truco”, de Ivana Arruda Leite.

Em busca desse futuro, a revista parece seguir um promissor caminho (sem volta, espero). Já começa mostrando o trabalho de duas exibidas da internet, Olívia e Rosa, duas amigas que gostam de fotografar uma a outra, nuas. Não há praticamente uma página sem link para a web (será uma dica que o futuro está lá fora, ou melhor, na rede?) e tirando a página com o retrato do genial Contardo Calligaris, praticamente não há nenhuma página que não exale sexo. Enfim, surge uma revista erótica não exclusivamente masculina, uma revista que um homem e uma mulher podem ler juntos e não um de cada vez. Boas transas para todos e vida longa à nova EleEla.

A primeira polêmica

Enfim o blog tem sua primeira polêmica! Êba!!! Num momento ego-surfing mais do que justo, o músico Ricárdo Cunha, da banda Super Reverb, reclama a correção de uma informação em um parágrafo do post Carta à WW (23 de setembro de 2006), no qual eu falo de um recente show de Wander Wildner em São Paulo e expresso meu descontentamento com o show da banda de abertura_ a banda dele.

Sei o quanto é duro o trabalho de uma banda (afinal já tive duas e convivi de perto com várias outras, algumas bem sucedidas, outras não) e não duvido que a dele deve trabalhar muito. Mas ali apenas quis expressar meu descontentamento com o som dos caras.

Entretanto, cometi um erro de informação ao ter dito que eles apresentaram uma música dos Stones como sendo da banda CokeLuxe, o qual corrijo agora (leia aqui a nova versão do post e desça até o final para ler o comentário do Ricárdo). Aliás, pesquisei e relembrei que “It´s All Over Now”, eternizada por Jagger e Cia., é uma versão rascante para uma composição dos americanos Bobby e Shirley Jean Womack. Na verdade, eles apresentaram a música (tocaram uma versão em português) como se fosse de Eddy Teddy, amigo dos caras, autor de uma versão em português do clássico dos Stones, boa, por sinal, melhor momento do show.

Reproduzo abaixo e-mail que enviei para o músico no dia 20 de outubro, assim que fui notificado pela Blogger sobre o comentário dele.

“Ricardão,

Muito obrigado pelo seu comentário no meu blog. Nada contra a mistura de
estilos. Minha coleção tem de tudo. Só não gostei do som da sua banda,
acontece. Adoro rockabilly, antigo e moderno, de Little Richard a Stray
Cats, mas com sua banda, sei lá, seja ela eclética ou predominantemente
rockabilly, não gostei.

Sobre a correção com relação ao nome do Cokeluxe, muito obrigado! De
coração. E realmente minha memória (e principalmente, o som do Studio SP)
pode ter me traído, mas ouvi uma menção à banda durante o show, pode não ter
sido neste momento, sobre o que me desculpo. Farei uma nova edição do texto
e um post para chamar a atenção sobre a correção no fim de semana (não posso
fazer isso de onde estou neste momento) em que apenas criticarei não ter
sido dado o devido crédito à canção eternizada pelos Rolling Stones, mas de
autoria de Bobby e Shirley Jean Womack, acabei de pesquisar.

Lamento, entretanto, a análise que você faz sobre o jornalismo. É uma
profissão em crise, mas que tem muita gente correta, não todas, como em
qualquer profissão do mundo, inclusive na música, carreira que eu tentei,
mas não abracei. Quanto ao blog, ele não é essencialmente jornalístico, ele
é pessoal, um apanhado de impressões pessoais, sem obrigação para com a
correção jornalística, com a qual coaduno.

Um abraço,

Marcelo

P.S.: E continue escrevendo, escrever é muito bom mesmo.”

Mesmo não concordando com vários pontos do comentário de Ricárdo, me ative a corrigir a informação e não aquecer a polêmica, apesar da brincadeira no título deste post. Entretanto, não recuo um milímetro do que quis expressar naquele parágrafo: não gostei do som da banda, que tanto poderia estar num mal dia ou ser ruim mesmo. O som da casa também não estava lá essas coisas... acontece. E espero não magoar os sentimentos de ninguém em nenhum post futuro.

Monday, October 02, 2006

Eu me lembrarei dessa noite para sempre

À tarde Liebe Dich havia se materializado num telefonema de dois minutos, depois, como névoa, sumiu de novo... Antes que a ansiedade me destruísse completamente, fiz o que costumo fazer nessas situações: fui ao cinema. Queria ver “O Maior Amor do Mundo”, mas a fila para comprar o ingresso estava enorme depois que o Gerald Thomas bombou o filme em um artigo para a Folha de S. Paulo.

Atravessei a rua e optei por uma grata surpresa: o primeiro longa de Edgard Navarro, do média-metragem “Superoutro” (quem nunca viu esta pérola, procure-a), “Eu Me Lembro”. O filme é maravilhoso, um raro mergulho autobiográfico de um cineasta brasileiro. Cheio de memórias, faltou apenas o sabor da cocada, o cheiro do baseado e o aroma de alfazema para que o deja vu fosse completo.

As canções, as cores, a cenografia, o sotaque baiano, enfim, tudo, me trouxeram também lembranças da minha mais tenra infância. Muito daquilo contado ali está presente no epitélio da minha subconsciência. O canto, a mãe preta, todos aqueles elementos me trouxeram a memória minha primeira viagem ao interior de Sergipe, quando tinha cinco anos... Com toda essa idade, aquela viagem foi um marco em minha vida. Foi quando despertei e descobri que o mundo não era apenas eu.

O contato com a cena agreste de Sergipe foi um choque para um garotinho bem criado de Santos, que crescia à um quarteirão da praia. O contraste entre as duas realidades me trouxe um estranhamento natural, cujo auge se deu no contato com a benzedeira preta (é a primeira lembrança que tenho de uma pessoa tão preta). O contato da arruda molhada com água benta na minha testa, o cheiro do insenso com a arruda, a reza cantada em voz aguda e alta, me fizeram gritar, espernear, chorar enraivecidamente, com ódio de meus pais. Porque eu estava ali?

Eu estava porque tinha que ser batizado naquela cultura. Foi um ritual. Eu era aquilo tudo e não poderia negar jamais. Sou filho de nordestinos e toda aquela força terrena está no meu sangue. É da terra que tudo brota e é daquele barro que eu sou feito. Agradeço até hoje ao meu pai por aquele batismo de sangue, aquele momento, me inundando com a nossa cultura... Hoje não tenho mais medo de sarapatel e dobradinha e tento descobrir, em cinco minutos, de onde é cada nordestino com quem eu converso. Eu amo esse povo.

E a noite prosseguiu. Liguei para o velho companheiro de guerra, MS. Depois de um papo agradável e muita comida no Exquisito!, atravessamos a rua e fomos na Funhouse. Apesar de ter quebrado minha promessa e bebido pacas, inclusive vodka, eu lembro de absolutamente tudo, viu, Rê... Até quinta...