Sunday, March 08, 2009

Elegia ao amor


Há tempos um filme não mexia tanto comigo emocionalmente como "Fatal", de Isabel Coixet ("Elegy", 2008). Saí realmente abalado da sessão que acabo de assistir no Espaço Banrisul de Cinema, em Porto Alegre. Após uma longa caminhada, sentar no escuro era tudo o que eu queria fazer para pensar um pouco na vida, nada melhor do que assistindo um filme de Isabel, uma autora do qual já vi “Minha Vida Sem Mim” e a “A Vida Secreta das Palavras”.

Isabel sabe filmar o amor, definitivamente. Diante do título idiota que recebeu no Brasil e, como não havia lido nenhuma resenha, pensava, erroneamente, que o filme era uma escorregadela da diretora pela velha-história-do-professor-muitos-anos-mais-velho-que-se-apaixona-pela-aluna-que-acaba-mal-com-a-morte-de-alguém.

Errei, ainda bem. Isabel acertou, de novo.

Há alguns dias, desde que, aparentemente, pus fim a um capítulo de um ano e meio de minha vida, só tenho pensado numa “aluna” que conheci, 13 anos mais nova, que mora do outro lado do país e que mexe comigo de uma forma devastadoramente positiva.

Vendo o filme, senti tudo o que sente o professor David Kepesh, brilhantemente interpretado pelo fleumático e técnico Ben Kingsley, e acho que entendi o que sente Consuelo, que ganha vida através de Penélope Cruz, divina. Trinta e poucos anos mais velho que Consuelo, batido por anos de relacionamentos fugazes, ele, na casa dos 60, não sabe lidar com as emoções e não sabe, claro, lidar com esse novo relacionamento.

Entretanto Kepesh não quer sofrer, ele corta tudo pela raiz e um dos que mais sofre é seu filho, Kenny, de cuja mãe ele se separou quando o rapaz era um garoto. Quando busca resposta no pai, Kenny só encontra interrogações. Simultaneamente, o professor busca uma estabilidade no estranho e durável relacionamento com a executiva Carolyn, a qual vê a cada 20 dias.

Entendo o sofrimento do professor, entendo seu medo, e me via nas cenas dele, especialmente, quando ele ficava sozinho no apartamento, querendo dizer tudo o que sentia para Consuelo, enciumado, pensando onde e com quem ela passava a noite. Entendi também quando ele teve medo e evitou uma festa da família dela, o que causou o fim do relacionamento.

Uma cena, em especial me tocou. Após uma briga, Consuelo liga para Kepesh. Ele pensa que ela vai terminar com ele até que dispara: “o que você espera de mim”. “Você tem a vida inteira por viver e eu só estou esperando o dia em que você vai me dizer que vai embora”, ele responde.

O solitário pensar do professor, destruído por anos de pragmatismo e de apologia do prazer, tem sentido, mas não é o que quero para mim. Quero viver até a última gota esse sentimento maravilhoso do amor, que me põe conectado a milhares de quilômetros de distância, com uma pessoa tão diferente de mim, mas linda e pura. Quero viver a nossa história. Obrigado por existir e demonstrar tão claramente o seu ser. E obrigado, Isabel, por me fazer refletir com um filme tão belo, verdadeira elegia ao amor.

Monday, December 08, 2008

Todos temos um pouco de Vicky e Cristina

... ou sobre como Woody Allen pode ser inspirador.

Esse texto é para quem viu Vicky Cristina Barcelona, de Woody Allen. Mas quem não viu pode ler também. É fim-de-ano e todos ficamos meio idiotas nesse período do ano. A gente olha para os 11 meses anteriores, vê que não conseguiu ou não quis mudar muita coisa e acha que pode virar super-homem em 30 dias. Infelizmente, não é assim.

É mais ou menos como auto-confiança da Vicky... Romântica, ela chega a Barcelona para um mestrado, de casamento marcado. Ela acha que nada na sua vida vai mudar e que vai voltar igualzinha após essa viagem.

Outros já podem olhar a vida como Cristina. Meio perdida e sem ter feito nada de que pudesse se orgulhar, ela aposta tudo e nada na viagem e se encanta com o pintor Juan Antonio de cara... E ela vive, tudo, de fato... Vejam o filme, não é meu objetivo contar o filme aqui...

E, no sábado, eu ainda não tinha visto o filme, se já tivesse tudo poderia ser diferente... Talvez eu estivesse R$ 199 menos pobre ou estaria R$ 199 mais feliz... mas não estaria me sentindo como agora: pobre e infeliz. Tudo dependeria da atitude que tivesse empregado durante o episódio desastroso que vivi.

A pessoa romântica, ou quando fica romântica, é meio imbecil. Muitas vezes, devido a solidão, ou à infelicidade de um dia ou outro, ela tende mais à fatalidade. Talvez seja essa a origem dessa minha crise... que, diferente da americana, vai passar. Há dias vinha tentando contato com uma moça, uma moça que me escapa por vários motivos. Ela mora longe, ela não pára quieta. Tudo que, a Vicky aqui não deveria dar atenção, mas...

Mas, meu lado Cristina pesou mais forte e eu segui em frente. Após dois foraços na sexta, tentei de novo a moça em questão... No MSN, a convenci que nos encontrássemos... O “mi casa” não funcionou e parti para um campo neutro. Um bar a meio caminho para ambos... Perto do bar há bons hotéis... Não pestanejei, no bar os beijos estavam bons, a comida e a cerveja, idem... (R$ 54). O papo sobre nossas vidas passadas, idem...

Por volta das 19h, nos registrávamos num dos bons hotéis (R$ 125). Valeria a pena, para minha casa ela não queria ir, pois tinha entrevista no dia seguinte, mas disse que ficaria e voltaria cedinho para casa, a tempo do compromisso. Para mim seria bom também, pois depois, dali, ficava fácil para buscar minha filha...

Tudo começou bem. “Aproveitamos a estadia” e, logo depois, saímos para que ela comesse algo, pois ela não tinha comido no primeiro bar... Ao voltarmos, ela já não era mais a mesma pessoa... Fumou um cigarro e da janela, olhou para mim como se uma parede fosse e disse que estava enjoada, que não iria ficar e que estava com saudade de sua casa, de sua cama... Agora, como Juan Antonio que sou, tentei contemporizar tudo, fui gentil e a levei até o ponto de ônibus e ela se foi... Eram pouco mais de 22h e eu estava possesso! Como pude ser tão bocó, estúpido, idiota... Porque eu acho que posso tudo??? Porque sou tão Vicky e tão Cristina ao mesmo tempo???

Tudo isso porque??? Porque minha Maria Elena se foi???? Porque ela não me quer mais??? Porque ela mesma não sabe o que quer??? E eu menos ainda??? Só sei que, depois que a moça entrou naquele ônibus e eu fiquei sozinho no quarto daquele hotel, tudo que eu queria era chamar meu amor para estar comigo naquele quarto. Mas, além da extrema cara-de-pau que se teria de ter para fazer aquilo, eu ainda estava triste depois de nossa última conversa, a mesma tristeza que me fez chamar a outra moça, mesmo, no fundo, sabendo que não daria certo...

Só sei que, depois de todas las mierdas, só penso numa coisa. Numa frase de Woody na boca do personagem Juan Antonio, comentando como vê a vida, apesar do jeito negativo de olhar a vida de seu pai, um poeta que, por odiar a humanidade, não publica sua poesia, muito parecido com a filosofia de sua amada Maria Elena, que pinta e não expõe: “I affirm life, despite everything” (eu afirmo a vida, apesar de tudo).

E é essa auto-afirmação da arte, é essa vontade de viver cada gota de vida, que me atrai ao cinema de Woody Allen e me faz pensar e aprender que, apesar de todas as merdas e de horas gastas em vão, sozinho num hotel ou de frente para o computador, vale a pena viver. É tudo um aprendizado. E não posso me arrepender de estar vivo e ter minha filha linda e sentimentos que uma vez transformados em algo produtivo, outras pessoas podem até considerar arte.

Saturday, August 09, 2008

Enterro de anão


Eu vi. Eu juro que vi. Uma carreata do Levy Fidelix na avenida Paulista! Ele é candidato a prefeito de novo!!! O mais incrível, a carreata tinha quatro carros, um deles era um Uno roxo. Que sucesso! Pena que eu não tinha uma câmera para registrar esse feito histórico.

Para quem não conhece, o Levy é de um partido nanico cuja sigla é PRTB (não me perguntem que p... é essa!). É o homem do aerotrem e que já disse que quer fazer avenidas em cima do Tietê e do Pinheiros... Sacanagem, hein, Levy, o Malufão disse no debate que essa seria a obra da vida dele (dele e dos netos que iriam viver da "comissão" até a oitava geração).

Parabéns, Levy. Com você, São Paulo é mais engraçada e idiota.

Wednesday, July 30, 2008

O campeonato ainda não acabou


Após 27 anos de devoção, finalmente cumpri a promessa feita aqui nesse blog (pelo menos acho que foi aqui) e pela primeira vez na vida fui ao estádio assistir um jogo do meu time, o Clube de Regatas Flamengo. Apesar da derrota de 1 x 0 para o Palmeiras, no Palestra Itália, um resultado normal em qualquer circunstância, o campeonato não acabou e vamos para cima Mengo!

Muito pelo contrário, pelo menos para mim, essa derrota foi uma vitória. Superei minha própria preguiça, o medo, o cansaço e fui, mesmo em território adversário (não consigo dizer inimigo, e até porque minha filha, do alto de seus sete anos se diz palmeirense e fã de Valdivia!!!). E outra, quem torce para um time glorioso como o Flamengo não precisa se incomodar com nenhum adversário.

Fiquei muito feliz em sentir-me integrante de uma verdadeira nação. Nossa pequena torcida, não mais que 10% do público, estava espremida num cantinho do excelente estádio do Palmeiras. Ouvi todos os sotaques possíveis e imagináveis. Havia cariocas nas fileiras bem atrás de mim, estava com um conterrâneo de Santos ao meu lado, a noiva dele e o pai dela, de Itajubá (MG). Um pouco mais para baixo estavam mais alguns cariocas e muitos, muitos nordestinos. Meu time é o Brasil e eu amo ser flamenguista por isso.

Tive a felicidade de ver meu time atacando no gol que estava bem na minha frente no primeiro tempo. Foi legal, apesar dos pesares. O time se ressente da falta de um meia-armador. No quadro atual do futebol brasileiro da primeira divisão não precisa ser um Zico. Um bom distribuidor de bola resolveria. Diego Tardelli é completamente medíocre e Obina, por mais esforçado, é jogador mesmo de segundo tempo e de Maracanã. Ele não cabe em gramados pequenos, como o do Palestra.

Se arrumar um meia em meio a esse entra e sai de meio de temporada (ficamos sujeitos a essa coisa horrenda de vender jogadores no meio do campeonato por não nos adaptarmos ao calendário europeu), o Flamengo estará com certeza, no mínimo, entre os cinco primeiros do campeonato. Mas, independentemente, do resultado, “uma vez Flamengo, Flamengo até morrer”.

Tuesday, July 22, 2008

Ressuscita-me!

No último dia 19 fez 11 meses que eu a Ju nos conhecemos. O início oficial de nossa relação, dois meses depois, salvo engano, foi o tema do meu último post aqui no blog. Mas porque o silêncio?.

Aprendi, ao longo dos anos, a escrever na inquietude ou na dor, mais ou menos como é no blues. Da dor extraía meus textos, que podiam até conter humor e alegria, raramente consegui escrever sobre a felicidade, sobre a boa rotina, sobre o lado pouco romântico dos relacionamentos.

Vou falar aqui da briga que tivemos sobre se comprávamos ou não um tampo novo de privada? Ou sobre a minha resistência em comprar uma cortina?. Não dá, né?

Ingênuo, não falava nem aqui, nem para ela, sobre bobagens que me inquietavam, não me relacionei o suficiente. Fiquei devendo explicações. Ok, faço aqui meu mea culpa.

E nesses sete meses achava que eu era a pessoa mais feliz do mundo e achava que ela pensava o mesmo. Até que numa noite de maio, ela me disse tudo que estava doendo nela. E eu ouvi, calado. E doeu, doeu muito em mim, principalmente sobre duas coisas as quais eu vou falar para ela no nosso próximo encontro. Ela sabe o que é e eu não vou expor aqui. Esse blog é sobre mim e como sobrevivo aos relacionamentos conturbados da minha vida de trintão e pai quase workaholic.

Nos dois meses que se seguiram após essa noite, mergulhei em minhas angústias e também numa solteirice dedicada. Ressuscitei o velho caderninho e tentei averiguar possibilidades deixadas para trás pouco antes de conhecer a Ju. Foi interessante? Foi. Mas não senti firmeza para ir além. Algo faltava.

No período, também viajei, encontrei grandes amigos de longe, disse tudo que estava na minha cabeça. Foi quando comecei a pensar se poderia superar a dor e até dar o primeiro passo, ligar para a Ju, etc, mas me segurei. Vi também os amigos de perto e pensei muito no vaticínio de um grande amigo. Ele dizia: “Meu, o teu problema é que você gosta de seduzir e pronto. Esse é o teu barato. O grande barato de se relacionar, que é o dia-a-dia, você não tem paciência para aturar”.

Confesso, amigo, eu nunca parei de pensar nessa frase. E tem horas que eu acho que é verdade, e tem horas que eu acho que é uma mentira deslavada.

E algo continuava faltando. Até que um dia ela me ligou e nos amamos aquela noite com um desespero pouco comum. Dias depois, ela reapareceu e pediu para voltar. Eu disse que precisava pensar, que havia muito o que discutir, principalmente aquelas duas coisas. A principal delas: eu sou um pacote composto por mim e minha filha. Quem quiser entrar nessa família, vai ter que levar o pacote todo, não pode querer apenas uma parte. Eu vou me sentir parcialmente infeliz se nós dois não pudemos estar juntos nessa casa.

Perto do aniversário dela, decidi: queria voltar. Mandei flores, pedi o retorno. Como em toda boa novela, agora foi ela quem disse não e que as coisas que havia dito na última noite juntos tinham feito ela pensar. Nada mais justo (o placar deve estar uns dois a dois)... Até que da última quinta-feira para cá, parece que está tudo como antes, tudo normal, mas ainda precisamos conversar sobre aqueles dois pontos. Entretanto, não consigo negar, está melhor com você do que sem você.

Friday, November 16, 2007

Estava escrito


Abaixo o horóscopo do signo de touro, da Barbara Abramo, no dia 19 de agosto, domingo em que conheci minha amada Ju...


“TOURO (21 abr. a 20 mai.)

Com o cenário astral super benéfico para os taurinos soltarem a imaginação no sexo e explorarem todo o potencial de sua sensualidade, o domingo só vai ser chato se você não tiver mesmo a menor vontade de mudar a rotina e se esconder dentro de casa! Saia, busque diversão, seja original na abordagem.” (grifos do autor).


Eu já tinha decidido antes de ler o horóscopo da minha mentora Barbara Abramo que eu iria sair aquele domingo. Em casa havíamos combinado os três amigos de irmos à festa de Nossa Senhora Achiropita, aqui no bairro, mesmo que chovesse canivetes, mas o tempo estava bom. E eu repetia a frase: “seja original na abordagem” como um mantra. Há testemunhas.


Seguimos pela rua Treze de Maio e pusemos o pé na festa, que estava lotada. Estava escrito e caminhamos pela Treze apinhada de gente e eis que vi duas moças de agasalho, mas fiquei encantado pela branquinha que ía na frente com cara de desavisada, com uma latinha de cerveja na mão... procurando algo, talvez. Eu quis voltar, mas o mar de gente me impediu, mas algo me dizia que eu a veria de novo naquela noite.


E não deu outra. Desci um quarteirão com os amigos para procurar barracas mais vazias e achamos. Paramos numa de pizza. Estava no fim do meu pedaço, quando a vi de novo. Olhei para ela e disse: gente, ela vai parar na barraquinha e comer aqui, limpem a mesa... Limpamos a mesa, o Marcos saiu e a Ju e a amiga ficaram ali perto da gente. “original na abordagem, original na abordagem”...


Escutei o que elas estavam conversando e meti o dedo na conversa. Logo, eu e a Ju estávamos conversando como se fossemos velhos amigos. Ela me contou um monte de coisas pelas quais estava passando e eu também. E eu doido para ficar com ela, encher ela de beijo... Até que ela soltou: “Se vc me pegar no colo, eu te dou um beijo”... Não tive dúvida... Antes que ela dissesse não, ela já estava no meu colo e ganhei um selinho de prêmio. Depois que a pus no chão, eu cobrei um beijo de verdade e ganhei... Um beijo cheio de vinho barato que ambos estávamos tomando, mas um beijo muito bom...


A partir de então, nos enrolamos por dois meses... Até que em outubro, a gente parecia precisar mais um do outro e hoje completamos um mês de pura felicidade. Ela conheceu minha irmã, meu pai, minha filha e todos gostaram dela e vice-versa... E aqui estamos, felizes, muitas garrafas de vinho depois. E eu quero mais e quero fazer de tudo para que continuemos felizes por muitos e muitos anos.


Graças à Barbara Abramo, graças à Nossa Senhora da Achiropita, graças ao vinho, mas, principalmente, graças à nós, que nos aceitamos e nos amamos, sem frescura.



Wednesday, October 17, 2007

flux fantecobainiano

tanta coisa na cabeça. (só porque) acordei feliz hoje? manhã nublada com os ipês-roxos do ibirapuera em flor. cenário para ocupar a cabeça com as imagens da semana. pedalo a bicicleta e penso nas cartas não enviadas de kurt, na los angeles de john fante. pergunto ao pó se vou ou se fico, mas só recebo telefonemas sobre cisco, abadia e avião. cisco kid? westminster? campo de marte? estou agitado, mas não estou ansioso. estou, de fato, calmo, como a pele clara dela, a escolhida entre as augustas. lenine, moby, magic numbers, radiohead. mergulho de cabeça. não faltam motivos para me apaixonar. há um mistério. conexão com a praia, o mar. nos prometemos um prato quente um ao outro. na praia será. perequê, tombo, embaré, boqueirão, gonzaga, pitangueiras. the bottom of the sea. interlagos, praia grande, matrícula, escola. mas não consigo esquecer uma coisa da noite que passou: uma pinta, um pouco abaixo da marca de biquíni dela.

Thursday, September 27, 2007

Simples


Queria que tudo fosse simples. Queria que tudo acontecesse como sempre planejei, mas não é assim que as coisas são, como a foto aí de cima. Parece a Europa, não??? Os alpes, carregados de pinheiros... Mas é capim-gordura florescendo. É São Paulo. É um detalhe do cemitério de Perus, 8h e pouquinho da manhã, 10 graus C, mais ou menos, terça-feira passada.

A vida podia ser simplesmente assim, bater uma foto sem flash, como minha amiga me ensinou e ter uma imagem linda. A vida poderia ser viver na mesma cidade que sua filha, mas não é assim. A vida poderia ser o tempo inteiro ao lado de uma grande amiga, passando a noite inteira dando risada, como aconteceu na sexta-passada, mas não é assim. E eu te amo, minha amiga.

Monday, August 13, 2007

Incríveis descobertas


Nunca fui muito de conversar com meu pai. Sei lá, nunca tivemos muito papo. Ele mandava e eu escolhia obedecer ou não. E obedecendo/desobedecendo, eu fui formando minha personalidade até os 22 anos, quando saí de casa. Nesses 11 anos que se passaram (aliás, hoje completo 11 anos em São Paulo!), meus pais se separaram, eu fui para a Europa duas vezes, casei e me separei e minha filha foi morar longe e nunca eu e ele paramos para conversar.


Tinha enorme curiosidade pelo período que ele havia morado em Salvador, pois sabia pouquíssima coisa. Sabia apenas que ele havia morado com o tio/padrinho dele e que tinha trabalhado num bar.


Bem, esse era o meu nível de informação. Que bom repórter eu sou...


Ontem, saímos para almoçar, batemos a cara numa fila enorme no primeiro restaurante e o desejo de ambos era peixes ou frutos do mar. Fomos ao restaurante em que ele sempre come no Boqueirão (que eu não gosto) e eu já esperava decepção... Mas além de comida excelente, descobri um monte de coisas sobre o velho Genésio... até porque tínhamos que matar o tempo de alguma forma enquanto o rango não chegava.


Meu pai saiu da casa dos pais (“o sítio não dava nada”) pela mão de sua mãe, que pediu ajuda ao tio Miguel, que o recebeu de braços abertos em Salvador e lhe arrumou emprego no bar de um camarada dele, cujo nome é bem legal, mas eu não guardei... (Vivi, eu sei, da próxima vez eu levo um bloquinho...) Meu pai tinha só 13 anos e o bar ficava num bairro (talvez) chamado Cidade Nova.


Putz, imagina, tudo bem que as famílias nordestinas não são mega-amorosas, mas imagina a minha avó... imagina a tristeza dela, soltando um filho no mundo com apenas treze anos. E lá meu pai chegou em Salvador, em 1958, pouco antes de completar 14 anos e ficou até 1967, quando voltou para o sítio do meu vô, advinhem, que continuava “dando nada”, tanto que ele foi trabalhar num estábulo ... E lá em Salvador meu pai pulou Carnaval (não consigo acreditar, nem pensar nisso!!!), frequentava as boates, bebia, zoava, cresceu longe dos pais...


O espírito aventureiro permaneceu por mais um tempo e, em 1967, ele mesmo decidiu e pediu no mesmo ano para vazar. Vovó, mais uma vez, pediu para a enteada que morava em Santos (minha madrinha), que desse uma forcinha para o meu pai e lá ele vive até hoje, isso faz 40 anos. Ele começou como faxineiro e trabalhou no mesmíssimo prédio, aposentou-se como zelador e lá continuou trabalhando até 2005.


Foi nesse prédio, a dois quarteirões da praia, que ele e minha mãe nos criaram com costumes burgueses (devido ao ambiente), mas em escola pública de bairro bom... Foi lá que fizemos nossas primeiras festas, que eu fiz os primeiros ensaios antes de minha primeira banda ter nome, foi lá que eu tomei um porre pela primeira vez e foi de lá que eu saí para São Paulo e não voltei mais, a não ser nas férias, feriados, para a pequena Santos.


E ontem fazia o tipo de tempo que mais gosto na praia. Céu cinza, vento frio, úmido, com o mar mexido, sem chuva... tempo que geralmente dá lá de maio a agosto, antes do sol e as flores ressurgirem em setembro. Era com esse tempo que eu gostava de sair para caminhar pela praia e pensar no amanhã, pensar versos novos, namorar, olhar os prédios tortos, o mar batendo na calçada.


Ontem quando eu caminhava e fotografava, vivia o presente, mas o passado estava junto (as demos das minhas bandas estão de volta e pela primeira vez eu tenho músicas da Nowhere em mídia digital) e vivia o futuro também, pois não conseguia parar de pensar em seus olhos verdes...


Para fechar, versos de um garoto cheio de sonhos, escritos um ano e pouquinho antes de eu deixar a praia para trás...


“My time has come/ I´m leaving tonight/ The future I´ve had hoped/ So much for/ Now is reality / I´m leaving tonight/ The past I´ve had hidden/ now is a lie...”


Wednesday, August 08, 2007

Sórdidos, mas comuns

A primeira coisa que me agradou ao chegar no Teatro Popular do Sesi com minha amiga foi perceber que estavam tocando o Exile On Main Street, dos Rolling Stones, em seqüência. Pensei: desse palco só poderá vir coisa boa.


Não sei se a trilha antes do início do espetáculo “A Educação Sentimental do Vampiro”, baseado em 40 textos do escritor Dalton Trevisan, o “vampiro de Curitiba”, foi escolhida por Felipe Hirsch ou por alguém de sua Sutil Companhia de Teatro, mas só poderia ser, pois tinha tudo a ver. Fora que imagino que Hirsch e sua trupe fiel, que inclui o incrível Guilherme Weber, adoram música_quem viu a belíssima adaptação que fizeram de “Alta Fidelidade”, de Nick Hornby, que ficou bem melhor que a de Stephen Frears para o cinema, sabe disso.


Stones tem tudo a ver com o mundo sórdido, mas comum de Trevisan. Sórdido, porque as histórias de submundo que ele conta revelam o pior lado do homem e da mulher, em todo o seu egoísmo, tristeza, ansiedade, devassidão... O mundo do autor, entretanto, é comum também, pois todos nós, mesmo os mais inocentezinhos, em algum momento, sentiram aquele gostinho de fel no cantinho da boca e se lambuzaram.


Fora que eu lembrei de várias histórias da minha vida assistindo situações narradas por Trevisan e drmatizadas por Hirsch na peça, mas isso renderia até outro texto.


A conclusão que se chega ao fim da peça de Hirsch é que não há salvação para ninguém, que não adianta buscar nada no céu, que não adianta recorrer a uma instância superior, enquanto não há nada em você que diga que vale a pena mudar. Na moral torta de hoje, se não faz mal (a ninguém), que mal tem? Não é verdade? Só não devemos ter dramas de consciência, arrependimentos. Na busca do prazer e do melhor para nossas vidas, só temos uma responsabilidade: que nosso prazer não machuque o outro.


Ao fim da peça, seguindo a ordem das músicas de Exile On Main Street que tocavam, chegou a vez de Happy, dos Stones, que começou logo depois de fechadas as cortinas vermelhas... “I Need A Love To Keep Me Happy”, cantam Keith Richards e Mick Jagger, narrando a história de um jovem que “nunca quis ser como papai/ trabalhando para o chefe dia e noite”.


E se queremos sair dessa vida de opressão, buscamos o prazer: seja um show, umas cervejas, uma baladinha, um abraço dos amigos, montar uma banda, dar beijos gostosos na boca da mais nova garota mais linda do mundo... Só sei que hoje estou extremamente cansado, depois do fantástico dia de ontem, mas serei o homem mais feliz do mundo até sexta-feira, porque até lá eu tenho um love to keep me happy. Pelo menos até lá.


Tuesday, July 31, 2007

Hora de voltar e recomeçar*


Depois da correria para chegar à rodoviária de Patos de Minas no horário, partimos para Uberlândia rumo à Maringá. Apenas nestes dois trechos andei 1.011 km dos 4.172 km que percorri entre SP-MG-GO-DF e PR. Mais 150 km e eu poderia ter ido do Oiapoque ao Chuí (os extremos norte e sul do País).

O cerrado é lindo, as cidades muitas vezes mal-crescidas, subnutridas, atrapalham a apreciação do cenário, assim como o bebê babão e seu gugudadá interminável dificultam a degustação da trilha que eu escolhi para o cenário: Beatles e U2. Pelo menos o ônibus era um pouquinho melhor desta vez.

Olho para os ipês, o céu mais azul do cerrado, a terra super vermelha do lugar... No player toca "All I Want Is You" e eu caio em mim e descubro que já não tenho mais esse "you", ou ainda tenho, mas tenho que esquecê-la?

Isabella dorme e eu penso: quando vou ter um "you" para, brega, cantar "All I Want Is You"? E, gente, o Bono está separado da Ali, após quase 30 anos de casamento e quatro filhos!!!

The Dream Is Over, acho. A única coisa que eu sei é que preciso, urgente, fazer algo para mudar minha vida.

Ou vou sempre pegar o ônibus da vida e aguardar as surpresas do caminho, como a jóia que encontrei no cerrado?

* Parcialmente escrito em 27.07.07, no ônibus entre Patos de Minas e Uberlândia... Foto: pôr-do-sol em Patos de Minas, em 21.07.07

Thursday, July 19, 2007

Fazendo uns kms


Como dizem meus amigos taxistas, estou "fazendo uns kms" a mais ultimamente. A falta de grana, somada a necessidade de viajar e aos meus temores diante do caos aéreo, confirmados pelo acidente de anteontem com o avião da TAM em Congonhas, atestam que tomei a decisão ao certa ao decidir fazer toda a minha viagem Santos - São Paulo - Minas - BSB - Minas - Paraná de ônibus.

Até agora já percorri 2240 km dos 4172 km previstos (mais 150 km e seria o suficiente para cruzar o Brasil de norte a sul, do Oiapoque ao Chuí!!!) e estou razoavelmente satisfeito com as companhias de ônibus e com a qualidade do descanso que tive durante a viagem, excetuando a verdadeira cangalha que peguei entre Uberaba e Patos de Minas (alô Viação Gontijo!!!!), um ônibus velho e fedidinho, que parava em qualquer lugar e cujo motorista não informava onde estava parando e por quanto tempo (o que é obrigatório, viu Viação Gontijo!!!!), e o gordão que viajou do meu lado entre BSB e Uberaba, que me tirou espaço e me garantiu uma noite de insônia.

Minha filhota só confirmou ser uma grande companheira de viagem. Do alto de seus seis anos de idade, nos divertimos horrores, seja com os yes ou nos de "I´ve Got A Feeling", que ela ficava cantando ontem em voz alta no ônibus, seja conversando sobre a estrada e soltando suas pérolas extremamente imaginativas, etc...

Até agora foi tudo bem, estou com a minha filha desde o dia 9. Nos dias que ficamos separados, ela em Uberaba e eu em Brasília, nos divertimos horrores. Ela foi ao parque dos Dinossauros, plantou pés de maracujá e eu fui em Pirenópolis-GO e curti meus amigões de Brasília, cada vez mais especiais e queridos e conheci uma pessoa nova MUITO legal. Ah, importantíssimo, descobri a beleza dos buritis, a diversidade, o clima, o sol e os sabores das frutas do cerrado em julho.

No dia que escrevi o texto, não consegui fazer o upload das fotos de Piri, mas agora taí... "Sabe o que é isso?: é pedreira de pedra de Pirenópolis"...

Tuesday, July 03, 2007

Ah se coubessem todos os etc...


“Thank you for your pictures”. Esta foi a única frase com algum sentido que consegui dizer para um feliz Bob Gruen, que autografava seu livro e posava para fotos com adolescentes, adultos e idosos que foram visitar a Rockers, exposição que compila seus 40 anos de carreira e que terminou este domingo. Junto com Mick Rock, ele é um dos maiores fotógrafos da história do rock.


A exposição, muito bem montada, inclui até objetos exóticos feitos a partir de suas imagens, como uma colcha que estampa a famosa foto do Led Zeppelin junto ao avião da banda. Mais do que retratos dos artistas, Bob conseguia revelá-los na intimidade, pois era íntimo dos músicos. Além de registrar momentos importantes da música, como o nascimento dos Ramones, os shows do CBGB Omfug, o surgimento da New Wave, Gruen também foi o responsável por um verdadeiro diário fotográfico do casal Lennon na América.


Ver suas fotos e tirar uma foto com Gruen (essa aí de cima que eu fiquei com essa cara de bobo), foi o ponto alto de um fim-de-semana especial, nostálgico, cercado de amigos de Santos. Era como se eu estivesse voltando à 95/96, aos tempos do Embryo. Só faltou mesmo o Roberto e o calor do verão santista no interior da garagem do prédio dele, onde ensaiávamos todo fim-de-semana.


O Mauro, “meu amigo de fé, meu irmão camarada”, veio ver a Rockers e o show do Lô Borges, em nova turnê, do disco “Bhanda”. Além de hospedá-lo, fui junto. A curtição, claro, seria garantida, até porque teríamos a companhia das F´s, duas irmãs que acompanharam e foram fãs de toda a carreira do Embryo e estavam sempre lá dando uma super força.


Apresentar lugares da cidade onde moro há tanto tempo para o amigo só fazem com que eu me apaixone mais ainda por São Paulo e acabe descobrindo lugares novos também, como o excelente restaurante japonês por quilo na Liberdade que descobrimos sem querer ou novos sabores como o doce de um tipo de pão de ló em formato de banana, com recheio de creme.


Já as manas moram há pouco tempo na cidade, mas sempre estavam por aqui e estão mais adaptadas. Estarmos os quatro ou até com mais gente junto não cai na conversa fácil de meras lembranças do passado. Como já havia abordado aqui em outro texto, há muitos pontos em comum e um horizonte inteiro para explorar ainda. Há pontos de contato indicando o futuro e nossos pontos em comum apenas ajudarão a conquistar a tal felicidade.


Uma das manas, por exemplo, é cinco anos mais nova que eu, o que hoje não tem mais o impacto dos tempos da garagem, quando ela tinha 16/17 e eu, 21/22. Além de termos a mesma profissão, temos um gosto musical parecido e curtimos alguns lugares em comum em São Paulo, com a diferença de que ela tem uma energia incrível que eu ainda estou recuperando aos poucos. Prometemos não perder contato. Ontem, por exemplo, ela me apresentou o Treze Bar.


A outra mana já está mais calma, tem quase a minha idade e a do Mauro e gosta de coisas mais tranqüilinhas, que eu também gosto. Já andou me levando para uns lugares diferentes, portanto acho que vou conhecer mais coisas novas. Todos estamos felizes de estarmos nos vendo de novo. É como se fossem os ensaios de novo.


Mauro, assim como eu, ultrapassou os limites do rock e é também um grande fã de música brasileira, com ou sem P. “Pra mim existe hoje apenas música que eu gosto e que não gosto”, diz ele. E eu concordo. Os rótulos nos engessam e afetam nossa busca pelo novo ou pelo antigo que pulamos nas prateleiras das lojas de disco ou que simplesmente deixamos de conhecer.


Como canta Belchior em “Velha Roupa Colorida”, “o que há algum tempo era novo, jovem, hoje é antigo”, portanto ninguém é obrigado a conhecer as novidades da música ou de qualquer arte assim que elas acontecem. Lô Borges, para mim, por exemplo, é uma novidade de pouco mais de um ano que ainda estou assimilando, assim como eu estou gamado em Magic Numbers e Snow Patrol, que são “fresquinhos”. Na prática, ambos são pão quente para mim, porque conhecer coisas novas é o que importa, não importa quantos anos elas tenham, como os discos de Warren Zevon, que o Mauro me trouxe emprestados e que me cativam mais a cada audição.


O importante é desbravar o desconhecido, como o rejuvenescido Lô, que do alto de seus 50 e poucos anos, concentra boa parte do repertório de seu show em novidades de seus dois últimos discos_”Bhanda” e “Um Dia e Meio”, que incluem parcerias com Chico Amaral (Skank) e César Maurício (Virna Lisi), além do velho companheiro Márcio Borges.


O repertório inclui ainda parcerias com outros artistas, como “Dois Rios” (Borges/Nando Reis/Samuel Rosa), lançada pelo Skank, que você pode ver aqui na versão do Lô no Sesc este sábado (atenção ao guitarrista Giuliano Fernandes!!!), e velhos clássicos como “Um Girassol da Cor de Seu Cabelo”, claro.


Queridos amigos, foi muito bom curtir tudo isso com vocês este final de semana. Virão outros! Já estou com saudade. E olha que faltou contar coisa aqui, imagina se coubessem todos os etc???


Monday, July 02, 2007

Feliz improviso*



Nada como 15 minutos de caminhada até o supermercado, perto da meia-noite, para que as idéias voltassem a servir para alguma coisa, além de esquentar a cabeça.

Preparo-me para as primeiras férias de longa duração após um bom tempo. Ano passado, em julho, optei por um período curto de descanso para ter um período longo de descanso entre dezembro de 2006 e janeiro de 2007, no qual somaria férias e recesso. Foi um erro. No recesso estive de plantão e trabalhei muito e não passei com a minha filha um tempo de qualidade, interrompido por chamadas repentinas e atendimentos a eles, os jornalistas...


Agora estou ansioso. Os amigos esperam e eu quero agradar à todos, principalmente minha filha. Ela merece. Este ano a vi somente duas vezes: na Semana Santa e na Páscoa. É chegada a nossa hora. Dos 20 dias, ficarei 13 com ela e ela poderá ver todos os avós e a tia.


Espero que os 20 dias de férias sejam tão bons quanto os quatro dias que passei no Rio no Corpus Christi. Tinha em mente ir ao Maracanã, assistir a uma apresentação de samba, pegar uma praia em Ipanema... Não fiz nada disso e não me arrependo. Das minhas auto-promessas, realizei apenas o sonho de ver o Rio a partir do Corcovado num dia de sol. Sonho realizado.


Não me arrependo porque curti meu tempo lá com dois dos melhores amigos que eu tenho nessa vida, o Bruno e a Gabi. Os dois são responsáveis por tudo o que eu conheço no Rio, onde me sinto cada vez mais em casa. Fora que os amigos aumentaram. Hoje minha “família” no Rio é maior, todos cariocas.


E os lugares que conheço e revisito só aumentam. Fui ao MAC e conheci Niterói, onde cheguei de barca, um passeio que me fez lembrar as travessias de Santos para o Guarujá na infância, multiplicadas por dez. Andei pela avenida beirando o mar e cheguei ao museu, uma obra futurista de Niemeyer quase dentro d´água com vista para o Pão de Açúcar e o Corcovado ao mesmo tempo. O dia terminou animado com um encontro com amigos em comum na Urca, que um dia já foi palco de confissões numa noite e beijos numa tarde. Depois, emendamos festa improvisada e muito animada na casa da Gabi, organizada pelo “trio ternura” em duas horas.


Aceitando o convite de um novo amigo, da festa emendei uma baladeenha forte na Casa da Matriz que foi fantástica. Já virei de freguês do pico que conheço de outros carnavais. O repertório de bocas e de músicas foi empolgante. O DJ estava animado e tocou uma seqüência cabulosa de sixties no fim da festa, espertamente intercalando Beatles, Stones, Who, Kinks e jovem guarda.


O autor fez sua já antológica performance de “Jumpin´ Jack Flash” e se surpreendeu com a sacada incrível do DJ, que tocou “Night Before”, do Help!. Nunca havia ouvido essa música numa pista antes (A moda de tocar Beatles na balada está pegando mesmo. No último sábado, aqui em Sampa, o DJ emendou uma seqüência grande na Funhouse).


No domingo, último dia, estávamos todos os três um lixo, por motivos diferentes. Levantamos e transformamos os restos da festa em café da manhã, sem vinho, nem cerveja, please... e fomos para a Lagoa queimar os pecados acumulados. Amém! Obrigado queridos amigos, vocês foram demais!!! Voltei zerado e com mais motivos para continuar amando o Rio. Pessoal de Brasília, me espere.


P.S.: Gabi, eu votei no Cristo, tá bom????

*Fotos de Bruno Cruz e MO

Monday, June 18, 2007

Cabeça em chamas


Um lugar nada bom para se estar neste momento é o meu cérebro. Não gostaria de estar na pele dos parasitas microscópicos que o habitam, pois lá dentro deve ser muito quente. Minha cabeça ferve há dias. Desde pouco antes de meu aniversário, foram poucos os momentos de concentração total.


Geralmente, meus pensamentos estão num lugar distinto de minhas ações. Na verdade, sempre foi assim. Na infância, meu pai sempre me acusava de estar “pensando na morte da bezerra”. Não tenho bois, nem vacas pelos quais chorar, mas além da ausência de minha filha, o excesso de trabalho e a grana curta, tenho pensado muito na forma como me relaciono com o mundo e as pessoas. Honestamente, é no que eu mais tenho pensado.


As paixonites vão e vem, mas ao pensar muito descubro que uma pessoa não me sai da cabeça e me sinto mal com a angústia causada pelo fato de que poderá demorar para encontrá-la de novo. Pior ainda pensar no fato que encontrá-la poderá não ser suficiente, como aconteceu no Rio. Foi maravilhoso vê-la, mesmo não tendo ficado a sós com ela, mas foi sofrido, tanto que da festa onde nos encontramos, saí para uma balada.


Precisava dançar, precisava pular, precisava beijar todas as bocas de mulher que sorrissem pra mim, precisava de água, precisava de fumaça. Precisava esquecer, mas não quero e não consigo, pois com ela sinto que a minha comunicação é total. Estivemos poucas vezes juntos, mas existe uma comunicação no olhar. É algo maior que eu e mais forte, bem mais forte. E eu já penso em dar um jeito sobre como estar com ela de novo e penso em arrumar um emprego na cidade dela, e começo a pensar novamente em sair de São Paulo, até porque a cidade dela me atrai.


Penso nela em tudo que vejo, em cada filme, em cada música. Acordo no meio da madrugada e tiro fotos, a partir da janela de casa, do sol nascendo, como essa aí do lado, meio noite, meio dia... Toda hora ela está presente de alguma forma.


Lamento pelas pessoas que estão perto de mim, pois eu estou longe delas. Muitas vezes, acabo sendo um escroto. Aproveito e peço perdão, principalmente para uma pessoa especial, muito legal, com a qual eu não estou sendo nem um pouco legal.


Agora terei uma semana de pausa. O trabalho será tão duro que sobrará pouco tempo para pensar. Já sabendo disso, preparei tudo relacionado ao aniversário da Isabella (dia 22 eu vou ao Paraná). Sequer andei de bicicleta no sábado e no domingo. Até na 25 de Março, que me assombra e assusta, eu fui, tudo para agradar a filhota. Até o dia 24 serei todo dela, mas depois do domingo que vem, eu já sei onde a minha cabeça estará, como um enfermeiro que tenta cochilar dentro da UTI.


É contraditório, eu sei, mas apesar da distância me causar dor, pensar nela me faz bem.


Frase da semana: “O que parece o céu para você, pode ser o inferno para mim”, do nóia que tentava dormir na esquina da Cincinato Braga com a Brigadeiro Luís Antonio.


Thursday, June 07, 2007

No Rio

Entrei no Rio ouvindo Cartola, que entrou no MP3 graças a amiga Lu (obrigado, Lu!!!). O ônibus voou rápido pela Dutra e às 11h eu já estava passando por Nova Iguaçu, depois Meriti, depois vislumbrei a igreja da Penha, Ramos, a p... do estádio de São Januário. 11h30, rodoviária e, logo depois, estava na casa do Bruno em Fátima.

E "agora vou seguir os conselhos de amigos", vou descansar, vou ler (vim lendo sobre Walt Whitman), ouvir música, beber um pouquinho, ver o pessoal daqui, curtir a Lapa, quem sabe Ipanema, ir no Museu de Arte Conteporânea, do Niemeyer, subir, finalmente, o Corcovado com sol... enfim, ser feliz.

Tuesday, May 29, 2007

Andando na Bela Vista

Tenho andado pelas ruas do novo bairro com olhos de criança. A Brigadeiro, a Treze de Maio, a Pedroso e a Vergueiro eu já conhecia mais ou menos bem, das idas ao Madame Satã, nos velhos tempos, e à Speranza. Mas agora aproveito o tempo para, de vez em quando, subir e descer pelas travessas e paralelas entre elas e vou me acostumando com o seu misto de decadência, destruição e beleza, ou às vezes tudo junto. São novos nomes para mim: Artur Prado, Martiniano de Carvalho, Monsenhor Passaláqua, Humaitá, Santo Amaro, Maria Marcolina, João Julião...


Subo e desço por esses nomes e vejo seu esplendor. Está no meu bairro a vista que hoje considero a mais bonita da cidade. A que se tem do viaduto Beneficência Portuguesa, olhando para a 23 de Maio, sentido Centro. Os bebedores de gasolina em seu frenético vai-e-vem, com um canteiro lindamente verde nesta época do ano ao centro e belíssimas e frondosas árvores do lado direito, ao fundo o prédio do Banespa... Antes gostava mais da vista sentido zona sul, com o Centro Cultural e a cúpula da Catedral Ortodoxa, como referência, mas o novo empreendimento imobiliário, medonho, bem na boca do Metrô Paraíso, estragou tudo.


Outro dia, tinha um compromisso e confundi a Vergueiro com a Liberdade e fui descendo pelas paralelas da Brigadeiro e da 23 até a Condessa de S. Joaquim. No caminho, descobri sem querer o convento das Carmelitas e a Igreja de Nossa Senhora do Carmo. Outro domingo, esperava encontrá-la aberta, mas depois da missa das 11h, ela só reabre às 18h30. Bastou ler a placa.


Aproveitei, desci e conheci a feira do bairro, na rua Santo Amaro, perto da Jaceguai (aquela do Silvio Santos e do Oficina). Provei o pastel, senti o cheiro das flores e vi as utilidades domésticas de última geração, como o desentupidor de pia que parece um câmbio de carro... Mas foi subindo a Brigadeiro pelo mão sentido Jardins que fiquei triste.


O belo hotel Danúbio, onde uma época funcionou o clube Base, está fechado. Suas cúpulas azuis, de inspiração bizantina, com acabamento feito com pequenos ladrilhos azuis e amarelos, parece que esperam que alguém as tome pela mão e cuide delas. Esse prédio precisa ser tombado, porque é lindo, como a pequena rua Adoniran Barbosa, de casas simétricas e coloridas...


Prefiro deixar a decadência da Brigadeiro de lado e volto para o lado de dentro e me deparo com a mais surpreendente construção. Uma típica vila italiana inteira, a Vila Itororó, entre a Maestro Cardim e a rua Martiniano de Carvalho, transformada num gigantesco cortiço e completamente abandonada. Uma grande casa, uma mansão típica dos tempos do café ou do início da industrialização paulistana, toma conta da paisagem. Na sua lateral, seis belíssimas colunas jônicas ou dóricas ornamentam o conjunto de fins do século XIX e seus rococós...


Olhando mais um pouco por cima do muro, me surpreendo mais ainda, pois uma rua de paralelepípedos lá embaixo termina no muro do terreno, crianças jogam bola, as roupas estão no varal, numa cena típica de Nápoles. Estava eu num filme italiano??? Não, estava em São Paulo, a cidade que eu escolhi para viver.


*****

Na mesma Bela Vista, também vou me acostumando com o comércio, seus costumes e seus horários. A pior e melhor coisa é o Extra. Ponto de convergência, costuma estar mais lotado depois da meia-noite, do que às 20h, mas a empresa do seu Diniz insiste em manter pouquíssimos funcionários na madruga. Resultado: filas enormes no caixa rápido do careiro supermercado, mas na Pedroso tem o Pão de Açúcar, que também fica aberto até tarde. O jeito é tentar a sorte por lá... É tudo caro mesmo, não é , seu Diniz??? Aliás, Carrefour, Wal-Mart, onde estão vocês, seus covardes??? Vamos quebrar esse monopólio!!!


Mas o bom mesmo do bairro é o Sacolão Brigadeiro, sob o viaduto Treze de Maio, que na verdade tem outro nome na placa: Armando Puglisi, o Armandinho do Bixiga, fundador do Vai-Vai, se não me engano... Bem, o pessoal do sacolão é muito legal. Você pede, eles dão um jeito e sempre tem o sorriso e simpatia da moça do caixa, que eu já descobri não se tratar de uma moça, mas de uma quase quarentona, mas ela não parece, pô... Tá sempre sorrindo!!!


Ontem descobri o padoca Dengosa, na Artur Prado, que serve sopa e pizzas num salão no andar superior, com um preço bem bacana e serve o honesto chopp Itaipava, que eu tomei com sopa, e muito bem acompanhado, o que dá muito certo no frio. E tem o bar em frente ao sacolão, o Dascanio, ou outro nome parecido (ainda estou me acostumando), com preços honestos, um dia tem chorinho com samba, outro dia Blues... Subindo mais um pouco tem a pizzaria Comilão, um segredo do bairro. É bom morar aqui, estou feliz.

Sunday, May 20, 2007

Transições (sonho, delírio e realidade)

"Não adianta amolar pensamento em pedra cega" (dito popular)

Pessoal, primeiro é preciso pedir desculpas. Andei meio sumido. Na verdade, estava por aí, mas tudo estava acontecendo muito rápido e os fatos se sucedendo tão sem tempo para uma digestão apropriada, que ainda não havia chegado a hora certa de falar. Acho que agora chegou.


As transições em minha vida este ano têm passado depressa. Primeiro, a mudança: missão cumprida e consolidada, inclusive com festa de inauguração devidamente realizada. Simultaneamente, tenho cuidado do meu corpo, sempre relegado a segundo plano. Comecei o RPG semana passada e tenho feito os alongamentos regularmente, o colesterol está sob controle com a dieta, o estômago também. As pedaladas continuam.


No plano financeiro (caralho, isso aqui está parecendo horóscopo da Claudia, mas beleza...), meu aniversário de 33 anos finalmente passou, o pedido de saque foi feito, amanhã o tutu deve estar na boca do caixa e o ar, enfim, começará a ficar mais leve de respirar e finalmente vou poder ajudar minha filha com o aparelho e visitar o Rio que tanto amo.


No plano familiar (gostei dessa forma de indexar as coisas), o relacionamento com minha filha está super amoroso. Me reconheço nela a todo momento, entretanto as visitas serão mais escassas (parte da transição financeira), mas serão de mais qualidade, eu prometo.


No amor, entretanto, a fase de transições continua. Depois de sonhar com uma moça que começou a namorar no dia que a conheci e com outra que vai embora semana que vem, o interesse migrou para uma baixinha (mais uma baixinha: do opposites attract?) atraído por um scrap e um comentário no meu blog que mexeram comigo e me seduziram.


Foram dias mirando o objetivo até que ele foi alcançado. Entre cigarros e cervejas, cervejas e cigarros, os beijos vieram, depois... Bem, depois ela acordou, levantou, foi embora e eu fiquei gamado, querendo que tudo acontecesse de novo. Muitas conversas depois o de novo não veio e lá fui eu na despedida da moça que vai embora e ela apareceu com outro cara.


Não soube suportar a minha decepção com ela, mas também a minha ansiedade, meus delírios que criaram expectativas desnecessárias e exageradas. Perdeu, Zoydinho, perdeu...


E assim o mundo gira e a lusitana roda. Uma semana depois lá estava eu numa baladinha que eu nunca tinha ido na vida e sou devidamente apresentado a uma garota genial, super simples e simpática, cuja vida também já teve uns turnovers básicos... e rolou um clique. E era real, humano, quente e terno. Parece o fim de uma era confusa e o começo de outra, mais relaxada e tranqüila.

Sunday, May 06, 2007

O Fim da Virada

“Além do horizonte existe um lugar bonito e tranqüilo pra gente se amar” (Roberto/Erasmo Carlos)


Tive uma Virada Cultural maravilhosa. Minha jornada começou às 20h de sábado e terminou às 8h de domingo. Doze horas de música, dança, cantoria e muita paz.


Vi a Exposição da Clarice Lispector, no Museu da Língua Portuguesa, em paz e sem fila, pude ver quase todas as gavetas, assistir à entrevista dela, olhar, sentir, curtir o indizível que Clarice era especialista em dizer.


Depois fui ver Sergio Dias, dos Mutantes, em show solo. Chatices progressivas e virtuosismo à parte, ele provou ser um excelente vocalista, além de muito bom guitarrista. Depois de cantar uma música chatíssima em que dizia não gostar de samba e ser doente do pé, Sergio levou uma versão antológica de “Balada do Louco” e depois o samba “Minha Menina”, de Ben, no bis. Gostosa contradição, como São Paulo e como a Virada.


Em seguida, curti o Clube do Balanço, tendo como convidado Erasmo Carlos. Apesar de um bêbado pentelhérrimo atrás de mim e puxando papo, curti o show ao lado de um pessoal super bacana de Osasco, que dançava muito. Fui abençoado por uma apresentação sublime e classuda do vice-rei do Brasil, que abriu sua participação com “Coqueiro Verde”. Após um discurso banhado de otimismo: “o sentido da arte é o amor e esse tipo de evento confirma que a gente ainda tem a ousadia de imaginar coisas utópicas: a arte capaz de deter a violência”, Erasmo cantou “Além do Horizonte”, sem saber o que viria depois.


Dali ainda tentei ver o Jards Macalé no Municipal, mas a fila estava impossível e encontrei e confraternizei com vários amigos. Fiquei ouvindo o show na escadaria com a amiga Fabi e dali fomos todos ver o Gerson King Combo mandar ver seus “Mandamentos Black”, com uma participação especial de Lady Lu, mãe do guitarrista de sua banda, também num clima de paz: "se você conhece alguém que gosta de arrumar briga, manda ele arrumar mulher", simplificou o irmão de Getúlio Cortes.


Encerrei a noite com o Beatles 4Ever fazendo um show de hits dos Beatles, quando estava previsto que fosse tocado a íntegra do Magical Mistery Tour. Mas foi razoável, Rampazzo realmente interpreta Harrison perfeitamente. “While My Guitar Gently Weeps” e “Something” foram algo acima da média para uma banda cover. O resto do show foi insosso, qual o meu estado físico às 7h15.


Tava tudo bem, tudo ótimo, mas pertinho dali, na praça da Sé, nem imaginava eu (quer dizer, eu imaginava antes de a Virada acontecer que o show deles seria um problema, mas, vou me reservar a não comentar, pois no meio da paz em que estava, não conseguia pensar neles) fãs dos Racionais MCs e a PM entraram em confronto (leia um relato sobre o tumulto, clicando aqui). A tenda de Eletrônico da XV de Novembro teve que parar suas atividades e a rua foi depredada, pois a PM “limpou” a praça e o tumulto se espalhou. Mais uma vez, a PM de São Paulo prova não saber lidar com situações de confronto e um certo diabinho dentro de nós fica pensando se é possível o mundo dos Racionais caber no “nosso” mundo, mas isso é odioso só de pensar.


Só sei que cheguei em casa satisfeito e feliz, mas acordei triste com as notícias. Para ajudar, ao mesmo tempo chega a notícia de que o jornalista que denunciou o caso dos vereadores pedófilos de Porto Ferreira foi assassinado de forma covarde e que Sarkozy e seu facismo venceram a eleição francesa. Notícias nada alvissareiras. Acho que o sonho de Roberto e Erasmo só vai se concretizar depois da geração dos meus netos, se ainda houver mundo até lá.

Friday, May 04, 2007

Um assalto, muita sorte, uma conversa fascinante, um B.O. e um beijo

Foi depois da festa do Agora que eu fui assaltado. Caminhava para o ponto de ônibus da Amaral Gurgel para pegar o ônibus de volta pra casa. Segui pela Major Sertório, pois sempre andei por ali de madrugada. Olhava as “damas da noite” quando fui cercado por dois jovens que me seguraram e levaram a carteira, o relógio e o celular, aquele imprestável.


Logo depois passou uma viatura da PM, que deu uma volta de dois minutos no quarteirão, mas os ladrões já tinham pinoteado e já deviam estar pensando em como transformar meu relógio querido e meu celular odiado em pedras de crack. Como sempre, não havia dinheiro na carteira. Não fui ferido. Por estar levemente alcoolizado não esbocei nenhuma reação e não tive raiva de nenhuma espécie. Foi a primeira vez que fui assaltado em São Paulo após 11 anos na cidade.


Só fiquei bem sentido, pois o relógio era de muita estimação. É um dos presentes mais marcantes que ganhei de meu pai. Foi o prêmio pela formatura em jornalismo, em 1996. Significou muito pra mim porque me mostrou que meu pai, independente das ressalvas que tinha sobre a minha profissão (ele queria que eu me formasse em direito), tinha orgulho daquele pequeno sucesso, muito mais dele do que meu. Afinal ele havia conseguido formar o filho mais velho dele, que tinha um diploma que ele não tinha. E meu pai não tinha inveja disso, tinha orgulho.


Mas alguém lá em cima provou mais uma vez que gosta muito de mim. Todos os meus documentos e lembranças (fotos da Isabella, papeizinhos, anotações que eu guardava na carteira) foram encontrados na Rêgo Freitas. A família que guardou minhas coisas mora numa casa simples em Heliópolis e lá fui buscar os documentos à tarde. Ofereci, de coração, uma recompensa, mas dona Gisleine disse que não era necessário e que ela tinha obrigação de fazer o possível para ajudar. Fez mais que o possível. Encontrou o telefone de um amigo anotado num papel, ligou para ele e Claudio me ligou avisando da novidade.


Ao fim da jornada estava esgotado e havia praticamente perdido o dia de trabalho, mas estava feliz por ser tão abençoado. Pude dedicar-me a conversar com N, que estava meio downzinha. Ela é uma garota fascinante que se abre lindamente como uma flor que está desabrochando, que compartilha sentimentos e tem olhos faiscantes que eu teimava em achar que eram azuis, mas não são. Nós falamos bastante e sobre quase tudo. Ela mexe comigo. Me convidou para um típico lugar que eu não iria nunca, mas eu vou só porque quero vê-la. Quero estar mais perto dela, quero conhecê-la mais. N, você brilha e eu quero um pouquinho da sua luz, mesmo você defendendo a pós-modernidade, que eu não acredito existir.


Entretanto, um sorriso no ônibus na volta do DP (pois é, ainda arrumei tempo para fazer o B.O. do assalto) me fez começar a crer na pós-modernidade. Supostamente chamada Bel, supostamente de 25 anos, supostamente publicitária, Bel estava bebinha e sorriu após cambalear e quase cair o corredor do ônibus. Como parecia que ela cairia fiquei preocupado. Ela seguia para o mesmo lado que eu, trocamos olhares e sorrisos e começamos a conversar. Tivemos ainda mais 15 minutos de um papo muito louco, mas que senti ser verdadeiro. Ela me fez prometer que se eu a visse de novo que não falasse com ela e que eu não pedisse o telefone dela. “Gosto de ser e não de ter”, foi como ela justificou. Será essa a pós-modernidade? Cumpri minha promessa e ela disse que ela era a (personagem principal de..) Doce Novembro e pediu fervorosamente: “assista”. Vou assistir.


Escoltei a bela e cambaleante Bel até o ponto de ônibus onde ela pegaria a conexão para sua casa supostamente nos Jardins e meu dia muito louco acabou com um beijo com gosto muito bom de cigarro e cerveja. Foi nossa primeira e última vez e foi ótimo, uma história completa em 20 minutos. Se todos os dias, os seres humanos tivessem 20 minutos de qualidade, como os que tive com N e com Bel, a vida de todos nós seria muito melhor e jovens pobres talvez não precisassem roubar. Como disse o cobrador do ônibus: sem amor, gentileza e educação, a vida não tem sentido.